Capítulo VII. Amor-próprio e sinceridade
4. Virtudes do amor-próprio.
O amor-próprio é tão engenhoso que, para vingar-se dos sofrimentos que ele mesmo se inflige, acabou por fazer admitir que é um vício não tê-lo. Mas isso não é sem razão. Pois onde o amor-próprio está ausente, encontra-se apenas um sentimento medíocre de si e pouca delicadeza. É quando o amor-próprio é mais forte que ele sente mais alegria em se perder, como se, ao se perder, se engrandecesse indefinidamente. O amor é o ponto em que o amor-próprio se abandona justamente nesse extremo em que se encontra pleno. Assim se explica esse aparente paradoxo: que aquele que sente mais vivamente a miséria e as feridas do amor-próprio é o mais capaz de renunciar a ele e de sacrificá-lo.
Pois aqueles que melhor sabem amar são também os que têm a consciência mais viva do seu ser separado. A palavra amor é bela demais para que se pense que nada de bom possa nascer do amor de si. O remédio para todos os males que ele engendra só pode ser levá-lo até o último ponto: quando ele se lança para além de tudo o que jamais poderá possuir, despoja-se de sua forma individual e, portanto, de si mesmo; transforma-se então em amor de Deus. O nosso próprio esforço de ser perfeito provém apenas de um amor-próprio mais profundo e mais exigente do que o esforço de parecer perfeito.
O amor-próprio nasce com a consciência de si. Como a consciência, supõe uma dualidade; distingue, num mesmo ser, aquele que ama e aquele que é amado. Mas, do mesmo modo que a consciência, valendo-se de uma luz que vem de mais alto, não deve iluminar apenas o eu, mas todo o universo, o amor me supera; e, se a princípio se aplica a mim, só recebe seu destino e seu sentido quando se aplica a tudo o que é. Alguns, porém, agem sempre por amor-próprio, até mesmo no bem que fazem ao outro, e se conformam à lei do indivíduo. Outros agem por amor, até mesmo no bem que parecem fazer a si mesmos, e se conformam à lei de Deus. Outros, enfim, confundem tão bem o amor-próprio e o amor que esses dois sentimentos sempre se prestam, neles, um apoio mútuo; e esses se conformam à lei da nossa natureza.
Assim, a maioria das pessoas sente alegria em servir, e a medida da sua ambição é a extensão do serviço ao qual julgam ser chamadas; de tal modo que seu amor-próprio se vê associado, apesar delas, a fins que as ultrapassam. A realidade do serviço prestado deve tornar-nos indulgentes em relação ao benefício que o amor-próprio dele retira, e devemos admirar a sabedoria dos meios de que a natureza dispõe nas próprias obras em que o egoísmo parece mais comprometido. Já que é preciso que cada ser humano sirva, não iremos, portanto, fazer reparos aos serviços de todos aqueles que servem ao mesmo tempo por amor-próprio e por amor.