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Capítulo VII. Amor-próprio e sinceridade

3. Comparação com o outro.

Sempre nos surpreendemos com a violência dos movimentos do amor-próprio quando comparamos a pequenez dos bens que os indivíduos disputam e a imensidão daqueles que possuem em comum, como o ser e a luz. Mas o amor-próprio é incapaz de sentir os bens que pertencem a todos; ao contrário, orgulha-se dos bens mais miseráveis, contanto que os outros deles sejam privados. É preciso que o que ele possui o eleve acima do outro, de modo que ele se alegra menos com o que tem do que em sentir que os outros não têm; ele se desprende dos maiores bens assim que os vê partilhados. Só pode sentir satisfação desde que busque alguma vantagem que seja só sua; e, se, no domínio em que se estabeleceu, superou seus rivais, isso lhe basta. Esse domínio pode ser muito estreito: assim, o amor-próprio mostra a suscetibilidade mais viva na posse de certos bens que, para a maioria das pessoas, só provocam indiferença e desprezo. E é essa estranha cegueira dos diferentes amores-próprios uns em relação aos outros que mantém entre eles uma certa harmonia. Mas é ainda o amor-próprio que nos faz perceber, no outro, o ridículo do amor-próprio.

Quase sempre somos indulgentes com os vícios cuja presença aparente ou oculta não observamos em nós. Acontece que elogiamos com sutileza todos aqueles cuja ferroada sentimos e rebaixamos, como contrapeso, as virtudes de que somos privados. Mas não é sempre verdade, como se acredita, que o amor-próprio denigra o vício apenas por malícia e para dissimular a sua presença. Ele pode pensar que se livra do perigo de certos vícios que o ameaçam ao condená-los vivamente quando os surpreende no outro. É um meio de se defender contra eles e, por assim dizer, de lançá-los para fora de si. Pois a boa opinião do outro não basta ao amor-próprio: ele quer ainda ter uma boa opinião de si mesmo e, como um vício enterrado no fundo de nós muitas vezes aparece no outro às claras, em toda a sua feiura, acontece que o repelimos com todas as forças, menos para dissimular do que para nos proteger dele, assim que sentimos a vergonha com que ele corre o risco de nos cobrir.

Os distúrbios do amor-próprio às vezes nascem da consciência de uma injustiça que nos é feita quando contemplamos o sucesso de outro. É que a ação do outro, quando a olhamos de fora, sempre nos parece insuficiente e imperfeita. Somos sempre severos em relação ao vizinho, sempre prontos a arrancar-lhe a ferramenta das mãos. Mas, ao mesmo tempo, somos tão cheios de inconsequência que também nos queixamos de realizar, sem a sua ajuda, um trabalho que não quereríamos deixar que ele fizesse.

Por fim, se somos mais gratos aos outros pelo bem que eles nos permitem fazer-lhes do que pelo bem que nos fazem, é porque o primeiro fortalece nosso amor-próprio, ao passo que o segundo o humilha.

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