Capítulo VII. Amor-próprio e sinceridade
2. Sofrimentos do amor-próprio.
O amor-próprio é inseparável de nossos limites: faz-nos sofrer por senti-los tão próximos e obriga-nos a nos contentarmos com satisfações medíocres, capazes de caber no espaço estreito em que elas nos encerram. Ele se esgota no exame interior, mas fixando o olhar no destino do nosso ser separado, e não naquele princípio de verdade e de amor em que a nossa vida se enraíza. Ao mesmo tempo, não cessa de nos comparar com o outro, e não com a mais alta ideia que podemos fazer de nós mesmos; e tira dessa comparação essas alegrias e essas dores mesquinhas que, ocupando-nos por inteiro, nos tornam igualmente miseráveis. Ele pode ter muita engenhosidade, sensibilidade e finura. Mas ele as converte numa suscetibilidade que nos dilacera, e não numa penetração que nos convida a tudo compreender e a tudo amar.
Ele nos arranca do presente e nos faz sentir a vergonha do passado ou a angústia do futuro. Ora, o pensamento do passado só nos entrega o irreparável, e o pensamento do futuro, o imaginário. Mas é natural que o amor-próprio se envolva no tempo e seja incapaz de se deter no presente; pois o presente associa de tal maneira o nosso próprio ser ao ser do Todo que o eu, obrigado a responder a todas as solicitações que o pressionam, parece então perder sua existência separada; ao contrário, o passado e o futuro o devolvem a si mesmo. Assim, o amor-próprio nos atrai para o que não é: alimenta-nos de ilusões. É ele que nos faz oscilar sem cessar do lamento ao desejo; ele é o contrário do amor, que é um dom de si sempre atual.
Quando estamos entregues, sem defesa, ao amor de si, ficamos sujeitos a preocupações constantes; a cada instante recebemos ferroadas ardentes. Não cessamos de ser atormentados por fantasmas ou por quimeras. Só adquirimos a paz interior, a liberdade e a clareza do olhar opondo às solicitações do amor de si a dureza da indiferença. Mas pode-se dizer que há uma indiferença que não é senão insensibilidade, da qual o amor-próprio deve nos libertar, e um amor-próprio que não é senão suscetibilidade, do qual uma outra indiferença precisa nos libertar.
A perfeição da atividade não deixa ao amor-próprio lugar para nascer; mas o amor-próprio ocupa todos os interstícios que a atividade lhe deixa assim que ela começa a fraquejar. Por isso, ele se esgota ora em se glorificar dos sucessos que ela acaba de obter, ora em se queixar do vazio em que ela nos deixa e em acusar dele o destino. Quando o destino nos é favorável, não se sabe se o amor-próprio sente mais alegria em dizer-se o seu artífice ou o seu favorito. Quando nos é contrário, ele sente um amargo alívio em dizer-se o seu mártir.
As decepções do amor-próprio ora o fortalecem, ora o apaziguam. Mas sempre se pode voltar o amor-próprio contra si mesmo, fazendo-o sentir que seu verdadeiro interesse lhe ordena esquecer-se. Pois aqueles que renunciaram aos prazeres do amor-próprio tampouco conhecem os seus distúrbios, que são mais numerosos e mais vivos: assim, já ganham mais do que perdem. E deixam campo livre para outros prazeres que não mudam com os acontecimentos e não dependem dos outros seres humanos. Se tentamos surpreender cada um dos movimentos do amor-próprio, observando como ele nasce, como nos comove e nos fere, como nos torna passivos e impotentes, o conhecimento das misérias que ele nos impõe permite-nos superá-las, reanima nossa atividade, transporta-a para o universal e lhe dá a confiança e a alegria que ele sempre nos retira.