Capítulo VII. Amor-próprio e sinceridade
1. O centro do mundo e o centro de si mesmo.
Ao dizer “eu”, dou ao mundo um centro: pois o mundo não pode ter por centro um ponto material, mas apenas um pensamento que percebe, que quer e que sente. Só ele pode contemplar ao redor de si um horizonte e abarcar a sua unidade. Mas sabemos há muito tempo que o mundo é infinito e que seu centro está em toda parte. É preciso, portanto, que existam em toda parte outros seres que também dizem “eu”. Não se pode pedir a nenhum eu que renuncie a esse privilégio que lhe permite estabelecer-se no centro do mundo: de outro modo, ele não seria senão um objeto entre todos os outros. Mas, se o eu é o centro do mundo, é ele mesmo que já não tem centro. Ora, por uma espécie de paradoxo, só a ideia do Todo pode ser o centro do eu; só ela pode regular todos os seus movimentos, dar-lhes impulso e finalidade.
Como somos senhores dos nossos movimentos, não há corpo do qual o nosso corpo não possa afastar-se; e, como somos senhores da nossa atenção, não há ideia com a qual o nosso espírito não possa romper o contato. Mas, do mesmo modo que, no espaço material, não podemos desprender-nos do nosso próprio corpo, no espaço espiritual não podemos separar-nos do nosso próprio pensamento. Contudo, se em vão procuramos fugir de nós mesmos, ainda mais em vão procuraríamos fugir do Todo em que fomos colocados para ficar a sós conosco mesmos. Pois reencontramos em toda parte a sua presença imutável; ele adere a nós mais fortemente do que o nosso próprio ser. Podemos imaginar que desapareçamos e que o Todo subsista; mas não podemos imaginar que ele desapareça e que nós subsistamos.
Pensar em si é estéril e extenuante, porque é pensar nos nossos limites. Mas só fora de si se busca o próprio alimento. É fora de si que cada ser descobre os elementos da sua própria substância; é participando do que não é ele que se cria indefinidamente. Ao recolher-se em si, ele se perde: não encontra senão o seu ser separado; ao referir tudo a si, perde o contato com o absoluto que o faz ser. Mas, ao sair de si, ele se encontra; pois supera sem cessar os seus limites. Ora, só o Todo pode bastar-lhe.
Assim se explica que o eu não possa obter nenhum bem verdadeiro — como a felicidade, o amor ou o conhecimento — senão saindo de si mesmo. Esses bens se lhe dão assim que ele deixa de tentar captá-los — e até se poderia dizer que é preciso que ele se entregue a eles para ser capaz de possuí-los. É que cada um deles lhe abre um acesso ao Todo. Mas o eu não pode esperar alcançar o Todo dilatando sua extensão, sempre tão limitada, nem estendendo suas forças, sempre tão débeis. Só pode chegar a isso se aceitar renunciar a si mesmo: então, só então, a presença do Todo se lhe revela, esse Todo do qual ele se recusa a deixar-se separar e que não cessa de preenchê-lo.