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Capítulo VI. O consentimento

8. Passividade.

Parece que, de todos os nossos estados, o estado de perfeita passividade é o mais fácil de obter. Pois parece mais fácil sofrer do que agir. No entanto, isso não passa de aparência. Há uma espécie de passividade — ou de silêncio da alma — que é também o ponto supremo da atividade, e que consiste em tornar-se perfeitamente dócil e acolhedor em relação aos nossos movimentos espirituais, sem os retardar nem os interromper pelas iniciativas do amor-próprio. É um estado de inocência bem distante dessa preocupação sem objeto, que é o nosso estado mais constante e que nos torna ao mesmo tempo incapazes de agir e impróprios para ouvir todos os apelos que nos são dirigidos. Há na passividade um caráter divino: ela é a abertura interior pela qual um ser, atento a si mesmo, consente na inspiração que o chama.

Seja no conhecimento sensível, seja no conhecimento espiritual, acabamos sempre diante de uma revelação à qual somos obrigados a consentir. Mas é esse consentimento que é o ato mais puro — ao mesmo tempo o mais humilde e o mais pleno — que nos é possível realizar. O verdadeiro conhecimento é uma união com o ser total, isto é, um confluente da atividade perfeita e da passividade perfeita.

Toda a atividade do espírito se exerce em vista da verdade; mas assim que o espírito a vê, torna-se passivo diante dela; sua iniciativa se funde numa humildade bem-aventurada. Não há maior alegria para ele do que quando acredita obter a revelação de uma realidade que não criou: inclina-se diante dela como diante de um dom magnífico que lhe é feito. E adquire uma confiança nas próprias forças que lhe dá uma espécie de embriaguez. Ao contrário, é quando mais desconfia de si mesmo que procura orgulhar-se, como se fosse uma obra que lhe pertence, de uma ciência na qual não crê. Pois as pessoas só criam a verdade na medida em que se enganam: de outro modo, elas a descobrem.

A perfeição da atividade é obtida pelo desaparecimento do obstáculo contra o qual ela parecia, no início, exercer-se: então cessa a oposição entre o movimento interior e o objeto ao qual ele se aplica, entre a inteligência e o conhecimento, entre olhar e ver, entre desejar e sentir, entre ser e ter. A passividade de que falamos deixa, portanto, transparecer a essência da nossa atividade mais pura, que é igualmente contrária à ociosidade e ao esforço e na qual a contradição desses dois estados se encontra ao mesmo tempo resolvida e superada: pois só o ato perfeito nos dá a impressão de um ócio supremo, ao passo que a ociosidade nos distrai e nos retém; só ele leva o esforço até o termo depois de ter percorrido, de um só traço, todas as etapas que dele o separavam.

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