Capítulo VI. O consentimento
6. As ações e o ato puro.
Ninguém pode evitar fazer uma diferença entre as ações e o ato puro. Uma pessoa de ação engaja a vida no tempo. Ela tem perseverança: busca determinar de antemão o futuro. Todos os acontecimentos que se lhe oferecem suscitam e renovam sua energia. Ela estima um fim pelo esforço que deve fazer para alcançá-lo; e os próprios obstáculos contra os quais esbarra parecem ajudá-la ao fazer nascer nela a ambição de superá-los. Assim, há unanimidade em reconhecer que a ação comporta uma duração durante a qual se exerce, uma sequência de fases através das quais se realiza pouco a pouco, resistências que a põem à prova, mas que a tornam imperfeita e, em certos casos, a fazem fracassar.
O ato é mais difícil de definir. Ele tem mais nobreza. Se tentamos várias vezes esse belo termo ato, tão perfeitamente simples e tão perfeitamente puro, o único que qualquer epíteto só pode alterar e enfraquecer, perguntamo-nos se não conviria reservá-lo para algum uso sagrado. O ato não conhece nem esforço, nem duração, nem lassidão, nem fracasso, nem repetição, nem diversidade. O que caracteriza a indústria humana é buscar semelhanças, de modo a poder recomeçar indefinidamente uma ação que teve êxito uma vez. Mas o que caracteriza o ato é produzir efeitos sempre novos por um princípio sempre idêntico. O ato estabelece um vínculo entre a eternidade e a duração; em si mesmo ele é eterno, mas permite que todos os seus efeitos se escoem na duração. Nenhuma ação jamais é capaz de nos satisfazer; mas o ato põe sempre o infinito em cada uma de nossas ações e lhe permite, por humilde que seja — desde que o nosso espírito lhe esteja inteiramente presente —, dar-nos um contentamento absoluto.
Uma atividade perfeita e que responde exatamente ao seu fim não ocupa apenas todo o espaço que lhe é próprio: ela se derrama infinitamente além. Ela preenche o universo. Há nela uma generosidade que não conhece limites, um amor que abraça tudo o que é, um dom da graça no qual a graça está inteiramente presente. Ela não faz escolha alguma. É um simples consentimento à vida. Interessa-se pelos menores acontecimentos e a falta de matéria lhe deixa mais pureza. Não busca elevar-nos acima de nós mesmos. Não conhece exaltação nem violência. Não tem exigências. Ignora o bem que faz. É liberal; só procura comunicar-se, isto é, dar-se a si mesma. E é um dom que supera todos os outros dons, pois é o próprio poder de os produzir.