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Capítulo VI. O consentimento

5. Os frutos da atividade.

Não se deve ver em nenhum ato um simples meio em vista de um fim mais distante; pois esse fim, por sua vez, não pode limitar a nossa atividade: ele ainda é apenas um meio. Poderíamos sacrificar toda a nossa vida a um fim infinitamente longínquo que sabemos de antemão não poder alcançar? Mas são os meios que pomos em prática que são a nossa obra verdadeira: é por eles que o nosso ser se forma. O objeto não passa de uma miragem que nos atrai; reduz-se a nada assim que nos aproximamos. Nada possuímos além da nossa própria ação no momento em que a realizamos. É destino de todo fim escapar-nos sempre, pois ele só pode suscitar o desejo ou extingui-lo.

Mas a verdadeira atividade nunca se torna prisioneira da sua obra. Deus renova sem cessar a face do mundo, mas por uma atividade cheia de iniciativa, flexibilidade e liberdade, que nunca se subordina à sua criação. E a nossa própria ação, se só tem olhos para o seu objeto, carece de pureza: ela é passiva, escrava e má.

Acontece, no entanto, que a obra pareça superior ao obreiro e que este já não se reconheça nela. É que ela ainda exprime sua participação transitória numa atividade que hoje se retirou dele; mas a obra fica sempre aquém da potência que a inspirou, embora agora esteja acima do estado em que ele mesmo se estabeleceu. Entre os seres que agem, uns se voltam para o resultado da ação e se tornam escravos; outros se voltam para o princípio que lhe dá movimento e vida e são libertados.

Parece às vezes que o amor-próprio é capaz de sustentar a atividade; na verdade, ele a corrompe porque é ávido de saborear o fruto dela. Ele a esporeia para o êxito e, com isso, faz com que ela perca sua inocência, sua potência e o segredo misterioso de sua fecundidade. O ato sempre produz um fruto. Mas não é preciso que a atividade se esforce para apressá-lo, nem que a sensibilidade se demore em desfrutá-lo. Não se deve desprezar o fruto; mas a virtude do fruto é conter a semente que sempre dá novos crescimentos.

Há ações que deixam após si obras visíveis, como a escultura, a indústria, a geração, e outras que não deixam nenhuma, como a dança, a intelecção e o amor. Estas são as mais nobres: não deixam vestígio algum no tempo; não se distinguem do seu objeto. E, quando cessaram, só delas guardamos uma pura lembrança ou uma potência mais perfeita.

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