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Capítulo VI. O consentimento

4. A matéria dócil.

A matéria resiste àquele que a toma como termo da sua atividade e tenta forçá-la; mas aquele que persegue um desígnio puramente espiritual encontra nela uma serva dócil que por si mesma vem responder aos seus desejos. Pois não é por uma corrupção da nossa natureza que somos obrigados a voltar-nos para a matéria para agir, mas por uma exigência do nosso amor, que não cessa de criar o mundo e de dar à sua criação a forma mais bela.

A matéria nunca é o objeto da atividade: é apenas o meio que lhe permite exercer-se e assumir essa forma sensível pela qual ela é capaz de atingir os outros seres, comunicar-se com eles e comovê-los.

No momento de agir, o espírito não deve voltar-se para a matéria como para um inimigo que buscaria reduzir. É mesmo impossível que o espírito aja sobre a matéria. Ele só pode agir sobre si mesmo, isto é, sobre suas próprias ideias; mas a matéria segue. O espírito não cessa de perseguir um movimento que lhe é próprio e, sem os ter buscado, produz assim no mundo visível efeitos que traduzem todos os seus sucessos e todos os seus fracassos interiores.

Imaginamos, ao menos, poder agir diretamente sobre o nosso corpo. Mas o esforço que fazemos para regular seus movimentos muitas vezes não é senão um ato impotente pelo qual o nosso espírito se torna escravo dele. É quem se preocupa menos com o corpo que o dirige com mais sabedoria, contanto que fortaleça em si esse princípio de vida de que o corpo não é senão a figura.

Do mesmo modo, por falta de um amor de caridade que nos leve a um outro ser por um impulso interior, acontece que usamos a matéria com uma espécie de febre para testemunhar, pela generosidade dos nossos dons, esse sentimento cuja falta nos faz sofrer. Mas é uma derrota pela qual buscamos enganar a nós mesmos: nossa ação tem um sentido demasiado aparente porque ela própria não é senão uma aparência de ação. Só quando ela é o desabrochar de um germe interior, que lhe dá vida e crescimento, ela pode encontrar lugar no mundo. Mas então é inacessível ao fracasso. Já não é preciso querê-la: ela se produz por si mesma no momento mesmo em que parece ter se tornado inútil. Ela é perfeita e invisível: já não é senão uma com a alma que a faz ser.

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