Capítulo VI. O consentimento
3. Dizer sim.
Todo ato consiste em dizer sim; todo ato é um ato de consentimento; pois toda atividade vem de Deus e a única coisa que nos é deixada é acolhê-la ou rejeitá-la. Mas esse consentimento que damos a Deus nos reúne a Deus de maneira tão estreita que é o próprio Deus que parece dá-lo em nós; e, no entanto, é quando sua ação se faz sentir sob sua forma mais irresistível que somos mais nós mesmos.
O poder de Deus não limita a nossa atividade: ele a alimenta. Os que aplicam sua vontade a uma obra pessoal penam muito e produzem pouco fruto. A vontade tem um papel mais modesto: é fazer calar a voz do amor-próprio quando ele nos incita a agir, evitar o divertimento, dispor-nos a acolher a luz interior e deixar agir em nós uma potência mais perfeita do que ela mesma, que nos permite engendrar, por uma necessidade natural, com facilidade e alegria, obras muito mais belas do que todas aquelas que ela poderia ter produzido.
Assim, é preciso distinguir em nós dois tipos de atividade: uma atividade que nos ultrapassa, mas que nos ilumina e nos conduz, e uma atividade individual que se submete à outra ou lhe resiste. Mas, quando se submete, ela consente, por assim dizer, na própria abolição; então a outra parece reinar sozinha; mas, ao mesmo tempo, os fins capazes de satisfazer a atividade individual são tão plenamente realizados que esta, ao receber conhecimento, potência e alegria, tem a ilusão de tê-los dado a si mesma.
Toda atividade é superior àquele que a exerce: cabe a cada um de nós, ao aceitar participar dela, dar a si mesmo o ser. Mas essa aceitação deve ser incessantemente renovada, pois ela nos mantém na existência ao manter nossa união com Deus. Assim que deixamos de dá-la, parece que a existência nos escapa e já não sentimos senão a miséria do nosso estado e a impotência dos nossos desejos. Ao contrário, a marca da vida espiritual é abolir a diferença entre a vontade de Deus e a nossa própria vontade; é impedir que esta persiga um destino separado e se volte contra o próprio princípio que a faz ser.
No momento em que essa separação cessa, em que a unidade do indivíduo e do Todo se restabelece depois de ter sido rompida, descobrimos em nós a independência pessoal que pensávamos ter abandonado e a liberdade interior à qual temíamos ter renunciado. É que, ao nos unirmos a Deus, tornamo-nos, com ele, trabalhadores da criação. Ao deixarmos de lhe ser exteriores, deixamos de ser exteriores a nós mesmos. Somos libertados de todas as coações que nos retinham, de todas as preocupações que nos perturbavam, das servidões naturais, das cadeias do hábito e do peso do passado. Adquirimos iniciativa, esperança e alegria; nossa vida se torna um nascimento ininterrupto.