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Capítulo VI. O consentimento

2. A ocasião.

É preciso que o pensamento e a vontade se guardem dos vastos projetos formados pela imaginação para impor ao universo a lei do nosso amor-próprio. Na realidade, nada se exige do ser humano além de um estado de presença atenta, em que não deixa passar chamado algum sem ouvi-lo, ocasião alguma sem responder a ela. É sempre falta de sabedoria caminhar com presunção para um fim distante que nos seduz e permanecer indiferente e cego aos convites que a Providência não cessa de nos fazer. Só fazemos bem o que fazemos se abandonamos todo desígnio pessoal e até toda vontade própria, se estamos sempre em ócio, com uma iniciativa sempre pronta: é preciso deixar a uma necessidade presente o cuidado de nos abalar e recolher sempre todas as nossas potências interiores em vista de uma ação que não sofre demora.

Há sempre ocasiões demais que nos são oferecidas para que precisemos antecipá-las; não devemos temer que nos faltem: só podemos deixá-las passar. Mas é preciso ter perspicácia suficiente para poder reconhecê-las e agilidade suficiente para poder aproveitá-las. A vida espiritual não nos pede nada mais do que responder a essas propostas que nos são continuamente feitas. Ela não nos pede nem provocá-las, nem forçá-las, nem mesmo espioná-las com zelo excessivo; basta aceitá-las com docilidade. As ocasiões mais humildes podem dar lugar às ações mais belas. Nosso pensamento deve preocupar-se mais com a qualidade da ação do que com a matéria que lhe é fornecida; e aqueles que não pedem para escolher essa matéria são também os que melhor percebem sua destinação espiritual e dela fazem o uso mais puro.

Samuel disse a Saul: Faze tudo o que se apresentar para fazer; pois o Eterno é contigo. Ora, o Eterno está com cada um de nós. As ocasiões são um dom de Deus; e a confiança que temos nelas é uma forma da confiança que temos nele. Cabe-nos discerni-las e fazê-las frutificar, mas não criá-las. Ao nos enviar a ocasião, Deus provê a todas as nossas necessidades: é a ocasião que dá à nossa atividade a prova que a fortifica e o alimento que a nutre.

É sempre ser inimigo de si mesmo preferir a ocasião que fazemos nascer àquela que nos é trazida. Pois existe no universo uma ordem que nos cabe esposar e não prescrever. Não basta que uma coisa seja boa em si mesma para que deva ser dita ou feita: é preciso que seja dita e feita no seu tempo e no seu lugar, isto é, que esteja no seu lugar no universo. Assim, nenhuma coisa particular possui valor em si mesma; e as melhores se tornam execráveis se as destacamos da ordem que devem contribuir para produzir e manter. Viver é saber usar o tempo e todas as ocasiões que ele nos apresenta sucessivamente. O difícil, é verdade, é harmonizar o querer com a ocasião; e, no entanto, nosso destino só é exatamente cumprido por um encontro admirável de nossa iniciativa com os acontecimentos.

A consciência de si — 2. A ocasião. has loaded