Capítulo VI. O consentimento
1. Vontade e inocência.
Ao escolher certos fins que tentamos realizar com a ajuda da arte mais sábia, encerramos de antemão o futuro nos limites da nossa imaginação. Mas a natureza é infinitamente mais sábia do que a arte. É preciso deixar-se levar por ela, em vez de traçar diante dela caminhos destinados a surpreendê-la e constrangê-la. Ao ceder ao movimento natural da nossa atividade, ao desfrutar do seu jogo, evitando fazer dela um meio a nosso serviço e impor-lhe como limites os nossos desígnios, damos-lhe toda a sua força e a fazemos produzir os seus frutos mais belos. Mas — dir-se-á — eles já não respondem aos nossos desejos. É precisamente isso que faz o seu preço: quando é purificada do desejo, a vida, ampliada para além de si mesma, traz sem cessar novos bens que ultrapassam infinitamente a espera de todos os desejos, mesmo os mais loucos.
A única coisa que pertence em particular à vontade é aceitar ou recusar um chamado que a convoca. A entrada na vida nos é oferecida sem que sejamos consultados; mas sempre temos o poder de sair dela. Do mesmo modo, a vontade pode acolher ou repelir os movimentos da natureza tanto quanto os da graça. Mas a potência que a abala vem sempre de mais longe; a vontade é apenas o seu veículo; e ela tem esse papel admirável, ao mesmo tempo modesto e soberano, de lhe abrir em nós uma passagem. Sua operação não é mais do que um consentimento puro. Ela perturba a ordem do mundo se pretende um poder próprio; não há sequer uma vontade demasiado pessoal do bem que não nos impeça de alcançar o bem. É preciso purificar-se ainda dessa vontade e ceder ao bem, mas não forçá-lo.
Quem acaba de comer do fruto da árvore do bem e do mal discerne imediatamente o mal do bem, mas é porque vê que o bem de repente lhe falta: então a vontade se torna seu único recurso. Mas há um estado de inocência que está além do bem e do mal e que permite possuir o bem sem dele tirar vaidade e sem temer perdê-lo.
É preciso ter confiança suficiente na ordem do universo para pensar que os bens que se oferecem a nós sem que tenhamos pensado neles são sempre melhores do que os que buscamos e desejamos. Os bens mais simples e sobre os quais ninguém discute — a saúde, a felicidade, a virtude — são tão inseparáveis do próprio ser que, quando os possuímos, é quase sempre sem os conhecer, sem os querer e, ao menos, sem nos deter neles para desfrutá-los.