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Capítulo V. A atividade

8. As virtudes do ócio

O ócio permite uma fruição de si mesmo e do mundo que nos revela as coisas sob um aspecto novo e desconhecido; ele nos desvela a essência mesma delas, que permanecia oculta para nós enquanto nelas víamos apenas a utilidade.

No ócio a atividade torna-se de novo livre e presente. Já não tem sua fonte numa solicitação que a pressiona, mas numa invenção que lhe é própria. Está livre de toda preocupação; está disponível; não se subordina a objeto algum. Segue seu movimento e sua inclinação, criando sempre, sem pensar nisso, ao mesmo tempo o seu objeto e o seu fim. A maneira como empregamos o ócio revela nossa potência e nossos limites. No ócio uns se abandonam às complacências do devaneio, outros se deixam invadir pelo tédio. Apenas alguns exercem uma atividade verdadeiramente humana, liberta de todas as tarefas particulares e capaz ao mesmo tempo de superá-las e contê-las.

Às vezes, salvar um ser é tirar-lhe o ócio de que ele só sabe fazer mau uso. Muitas pessoas às quais o ócio é dado acolhem apenas a ociosidade, que é a sua corrupção. O ócio não deve ser consagrado ao divertimento; mas o ocioso é incapaz até mesmo de se divertir.

O ócio é a condição do sábio, que não tem nem preocupação nem impaciência, que ignora o desejo e o pesar e cuja atividade sempre se exerce num presente que o preenche. Há um ócio que algumas pessoas possuem por condição, um ócio que, para outras, é fruto do trabalho, e um ócio, enfim — o melhor de todos e o mais raro —, que se distingue tão pouco do próprio trabalho que já não nos permite reconhecer se esse trabalho é recompensa, obrigação, movimento natural ou livre escolha. O sinal da pessoa livre é fazer coincidir a alegria com a sua atividade mais habitual; o sinal da pessoa escrava é separá-las.

É mau sinal começar por recusar toda ocupação sob o pretexto de guardar o ócio e a pureza da atividade interior. Reivindicar um tempo vazio de ocupações para preenchê-lo a seu gosto é assumir a responsabilidade mais temível; é correr o risco de deixar entrar em si o pior mal, que é o da impotência de agir. É preciso que a atividade possa sempre empregar todo o seu ímpeto; e acontece que precisamos ter muito o que fazer para fazer tudo bem. A atividade interior não é uma atividade separada: é preciso que ela sustente e ilumine todas as nossas ocupações, em vez de delas escapar; é ao transformá-las que ela parece aboli-las.

A ação só tem um caráter de facilidade, de potência e de fecundidade no ócio: é o ócio também que engendra o conhecimento e a felicidade. O ócio cessa quando nossa atividade é capturada e dispersa pelo objeto; renasce quando o objeto apenas a liberta. Não se deve, portanto, confundir o ócio com a inércia: o ócio é a virtude de uma atividade purgada de todo pensamento que a divide e capaz de se exercer com simplicidade e inocência.

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