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Capítulo V. A atividade

7. O divertimento

O divertimento é a marca da minha incapacidade de me bastar; ele espera a felicidade de um objeto exterior a mim, que não pode me dar contentamento algum. E o desejo só é um mal porque é o princípio do divertimento.

Há um divertimento do corpo que nos impede de permanecer no mesmo lugar. As pessoas vãs e superficiais, carnais e transitórias, precisam dessa forma de divertimento que lhes revela sempre algum novo aspecto do mundo, como se vê no seu gosto pelas viagens. Mas as pessoas mais profundas consideram essa novidade como sempre a mesma: ela perde logo sua flor. E é o que é sempre o mesmo — isto é, a sua própria presença no mundo — que lhes parece algo sempre novo.

Mas o divertimento do corpo é sempre uma derrota do espírito. O divertimento passa sem cessar de um objeto a outro, porque busca sempre uma satisfação perfeita que nenhum objeto particular é capaz de lhe dar. Mas o que caracteriza o espírito é permanecer ligado a um objeto eterno e ser capaz de reconhecer, no espetáculo mais humilde que lhe é oferecido, uma presença que nunca se esgota.

Toda segunda intenção é um divertimento: ela divide a atenção que devemos prestar ao presente e impede que nos consagremos a ele. Ela reprime a parte divina da nossa atividade. Há segundas intenções físicas, como o sentimento de estar doente, que sujeitam o espírito ao corpo; mas as verdadeiras segundas intenções são espirituais, como o transtorno produzido por um passado cuja imagem já não suportamos — ou cujas consequências calculamos —, e a preocupação com um futuro que tememos ou esperamos. Pois é sempre o tempo que nos distrai.

O divertimento é um mal que não se deve buscar organizar e regular: isso é sinal de má consciência e de tristeza interior. A maioria das pessoas vê no ofício uma tarefa e busca, em outro lugar, o divertimento. Mas, para muitas, para quem o ócio pesa mais do que a tarefa, é o ofício que é um divertimento. No entanto, é o destino comum de todos os que buscam o divertimento serem incapazes de desfrutá-lo: pois ele tem então esse sabor impuro e amargo que lhe dá a obscura preocupação com uma tarefa mais essencial, da qual o ser parece querer escapar como se procurasse fugir de si mesmo. Só quando a atividade deixa de ser divertimento e nos toma por inteiro ela se torna fecunda, alegre e inocente; só então ela alcança a liberdade, a força e a graça do jogo. Ou ela se engaja e impede que o divertimento nasça, ou ela se retira e o divertimento está por toda parte.

Os dois vícios opostos de uma atividade que desfalece são o divertimento e o torpor. Mas o torpor ainda pode ser abalado: ele deixa no espírito um vazio que sempre pode ser preenchido. Ao passo que, em todo divertimento, o espírito está ocupado por um objeto ilusório que não basta para enganá-lo, mas o impede de acolher qualquer coisa. Tudo pode ser matéria de divertimento, até mesmo o objeto mais nobre e mais puro. As maiores pessoas — os sábios, os conquistadores — podem viver no divertimento. E o que se chama gênio muitas vezes não é senão um divertimento brilhante.

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