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Capítulo V. A atividade

6. Atividade de ofício

Há quem consagre com facilidade todos os recursos do espírito às coisas do ofício, enquanto outros só podem despendê-los fora dele. Os primeiros têm mais gosto pela obra feita em comum, em que uma tarefa distribuída pede a colaboração de todos e a responsabilidade de cada um; em que as regras servem de guia e pedem, na aplicação, exatidão e habilidade; em que o contato prolongado com o mesmo objeto permite que os hábitos nasçam e que as dificuldades sejam medidas e superadas. São recompensados, por sua perseverança e por seu zelo, com uma criação visível, útil, cuja perfeição e mérito se julgam de imediato.

Nos outros, há mais independência e até mais indisciplina. As obrigações inseparáveis de toda atividade metódica os paralisam, em vez de sustentá-los. É preciso que sua iniciativa permaneça sempre intacta. Eles só produzem na sua hora. Cada passo deve ser comandado por uma necessidade interior, e não por uma tarefa a cumprir. São poetas mais do que operários. Quase nunca entregam aquilo que se teria, em princípio, o direito de exigir. Mas oferecem um excedente que ultrapassa toda esperança: sua simples presença nos ilumina; há nela uma generosidade que nos preenche.

Seria preciso que os primeiros, que ficam desamparados quando lhes falta o ofício, tivessem por toda parte regras a aplicar, como se a tarefa do ofício reinasse sobre sua vida inteira: então lhes perdoaríamos que lhes faltasse um pouco de liberdade e de impulso. Seria preciso permitir aos outros exercer, mesmo no ofício, seus dons naturais, sua fantasia, o jogo imprevisível da sua potência criadora. Mas, nesse ofício mesmo que terão escolhido e que melhor corresponderá ao seu gosto e ao seu gênio, sempre será preciso perdoar-lhes certa irregularidade e até algumas falhas.

Se o ofício nem sempre está de acordo com a vocação, isso é muitas vezes efeito de uma má escolha mais do que de uma má sorte. É às vezes uma prova que o destino nos impõe para nos obrigar a descobrir e a exercer algumas de nossas potências ocultas. É quase sempre uma ilusão produzida pela vaidade, pela falta de atenção ao presente, pela necessidade de divertimento, pelo preconceito de que se estava reservado a um destino mais belo. Mas não se deve criar uma oposição entre o nosso ofício e a nossa tarefa de seres humanos: é preciso fundi-los. A atividade mais perfeita no ofício não é aquela que se conforma mais fielmente às regras do ofício, mas a que as dita porque as supera. E, se nunca se deve fazer da parte divina da nossa atividade um ofício, não há ofício em que ela não apareça.

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