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Capítulo V. A atividade

5. Atividade comum e atividade de exceção

Há em cada um de nós uma atividade comum, que se exerce em quase todos os acontecimentos da nossa vida, e uma atividade de exceção, que supõe a outra, mas que é, em relação a ela, uma justificação e uma evasão. Cada um gasta a primeira tão perto de si que mal a nota. A outra se torna mais facilmente um espetáculo e um objeto de admiração. Mas talvez não seja a nossa atividade mais verdadeira: ela às vezes alcança uma espécie de amplitude monstruosa que lhe faz perder a solidez. Forma uma bolha brilhante, mas é frágil e ilusória se não for nutrida pelas virtudes mais comuns, das quais deveria ser o desabrochar.

Seria preciso perguntar a uma pessoa que adquiriu a glória se ela fez reinar também a felicidade em si e ao redor de si, se, nos momentos de solidão consigo em que se mede o próprio destino, não experimentou o sentimento amargo da própria miséria: pois cada um de nós encontra em si mesmo um juiz muito mais perspicaz do que a opinião. Ao contrário, há uma atividade invisível e escondida, sempre presente a si mesma, que pode não ultrapassar um círculo muito estreito, mas nele espalha indubitavelmente seus efeitos; ela não se orgulha de si mesma, mas nunca falta a quem a possui. Não adquire renome, mas ninguém a contesta; e ninguém pensa em pôr na balança — como quando se trata da outra — seu valor verdadeiro com a estima em que ela é tida.

É preciso que cada um de nós, sendo um indivíduo e não apenas um ser humano, tenha uma vocação que lhe seja própria; mas há aí uma necessidade comum que é preciso reunir à atividade comum e orientar para um uso comum. As ocupações essenciais da vida, aquelas às quais mais importa dar gravidade e profundidade, são as mesmas para todos: são também as únicas que são sempre novas. É muito fácil enganar-se sobre o valor real de uma pessoa: as relações da vida cotidiana e o face a face da amizade põem a nu os valores falsos e fazem sobressair os valores ignorados.

O contato constantemente renovado consigo mesmo e de si mesmo com Deus dá um sentido luminoso e profundo às nossas tarefas mais humildes e mais familiares. Ele nos ensina a sentir, em sua regularidade, uma espécie de encanto espiritual, a saborear o prazer sempre renovado que dão as diferentes horas do dia à medida que giram e que prevemos sua chegada.

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