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Capítulo V. A atividade

4. Autodomínio ou abandono

A medida, o sangue-frio, o autodomínio não são virtudes que possam nos bastar. Retêm todos os impulsos, os melhores e os piores. Podem impedir o entusiasmo de nascer e até a luz de penetrar em nós. São virtudes de defesa, de prudência, de reserva, mas que às vezes se distinguem mal de certos vícios: o fechamento, a cautela, o desprezo. Favorecem todos os cálculos; tornam possíveis todas as empreitadas deliberadas nas quais o indivíduo busca sua própria vantagem. São úteis toda vez que estamos divididos em nós mesmos, toda vez que buscamos alcançar um fim desejado, toda vez que temos medo de ser enganados ou de não conseguir: dizia-se outrora dos ladrões que eram sóbrios e de bons costumes. Retêm os movimentos da espontaneidade: os da paixão, mas também os do amor. Só têm valor para purificar a alma de todos os impulsos sensíveis que correm o risco de arrastá-la e distraí-la, e para preparar um dom de si que deve ser um perfeito abandono.

O autodomínio não deve ser um efeito do amor de si, mas dessa atitude contemplativa pela qual reconhecemos que somos parte do Todo e que devemos nos submeter à sua lei, em vez de procurar submetê-lo aos nossos desejos. É belo poder dizer que temos o coração em nosso poder, em vez de estar sob o poder do próprio coração. Mas esse autodomínio pode tornar-se horrível, como se vê entre os hindus, que nos pedem que comandemos nossos sentidos até que uma forma sedutora nos pareça repugnante e que uma forma repugnante passe a nos seduzir. Isso é sinal de orgulho, uma recusa de inclinar-se diante da ordem universal, de reconhecer os sinais que ela põe sob nossos olhos, de responder aos apelos que nos faz e de aceitar as condições dessa comunhão com todos os seres que nos permite amá-los, ora por causa de sua beleza, que nos atrai e nos eleva, ora por causa de sua miséria, que ainda é preciso sentir para buscar libertá-los dela.

O autodomínio que os estoicos recomendavam como a primeira das virtudes e que os ingleses praticam por efeito da educação, sem precisar para isso de filosofia, é muitas vezes um enrijecimento do nosso eu separado: ele proíbe, com os outros seres e com a natureza, essas trocas sutis que são impossíveis quando nos recusamos a todo abandono.

Há dois tipos de espontaneidade: uma espontaneidade individual, egoísta e carnal, que muitas vezes cabe à consciência e à vontade dominar, e uma espontaneidade espiritual, cheia de expansão e de amor, diante da qual o autodomínio não é mais do que uma retenção do amor-próprio. Distinguem-se por toques leves que é preciso saber reconhecer sem neles se demorar. Nem sempre estão em oposição: a vida mais forte e mais sábia é a que comporta mais flexibilidade e mais liberdade; acontece até que são aqueles que não temeram confiar-se aos movimentos dos sentidos os mais aptos a confiar-se aos movimentos da graça. Pregam-nos sempre a medida e parece que nunca sabemos parar a tempo. Mas acontece também que temos medida demais, isto é, que nos falta força para levar cada ação até o último ponto.

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