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Capítulo V. A atividade

3. Medida

Para pensar e para agir, é preciso uma ruptura de equilíbrio, mas que não ultrapasse certo grau. Quando o corpo tem segurança demais, o pensamento tem menos liberdade; ele se move mais quando o corpo não está inteiramente satisfeito: a insônia e a fome, se não têm excesso demais, dão-lhe mais leveza e uma ponta mais fina. A necessidade ainda não se torna preocupação e aguça o pensamento em vez de distraí-lo.

Não se pode agir se não se é levado por algum impulso; mas é preciso ser senhor de si na execução. A ação é uma adaptação flexível e viva às condições que nos são oferecidas: é preciso moldá-la numa matéria que não criamos. Para isso, não se deve deixar a ocasião passar, mas responder-lhe com tato e medida. Pois quem age deve respeitar o pudor e o gosto. A medida é a virtude de uma atividade que persegue seu fim, mas ainda não o alcançou; ela tempera os excessos do impulso; torna-nos sensíveis à presença da razão, que é uma disciplina antes de ser uma luz. Ela é aparentada à ordem, que precede a justiça e a verdade, mas não é senão a sua figura e só tem valor se é um método que nos aproxima delas, que as faz pressentir e que, até certo ponto, as imita.

A medida é um meio entre dois extremos: ela é capaz de se ajustar à força, à sabedoria e à graça; não é ela mesma um fim, mas antes uma arte de perseguir todos os fins, alcançá-los e até desfrutá-los. Todo fim é um extremo que preenche a atividade e não lhe deixa nenhum movimento para ir além. Mas, mesmo quando visa aos maiores bens, mesmo quando os possui, o espírito só permite que seu equilíbrio se rompa para reencontrá-lo e sentir melhor o ato que o mantém. Esse equilíbrio rompido e restabelecido no mesmo instante é para ele um bem mais precioso do que todos os outros e sem o qual estes não poderiam ser nem reconhecidos nem saboreados.

A medida, longe de retardar ou enfraquecer nossa atividade, convoca todo o seu movimento para preencher o intervalo que separa os extremos e toda a sua força para manter firmemente o meio. A questão é assegurar à atividade o seu aprumo, sem paralisar o seu impulso. O espírito, para ser senhor de si mesmo, deve colocar-se num centro imóvel em que mantém nas mãos, sem se deixar levar, os desejos estendidos ao mesmo tempo para todos os extremos.

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