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Capítulo V. A atividade

2. Ser sutil e ser forte

Ser sutil é conhecer e conhecer-se; é também prever e usar de astúcia; é captar as nuances do real; é penetrar em seus recantos; é estar diante dele como um jogador atento que não se deixa surpreender. A sutileza é um tato delicado das diferenças, uma sensibilidade à mudança — mesmo a mais leve —, uma flexibilidade do pensamento e da vontade, uma simpatia sempre nascente, mas que nunca perde a iniciativa e nunca se deixa enganar. Ela sempre ultrapassa o invólucro das coisas; adivinha e já pressente os menores movimentos de sua alma secreta. É aparentada ao gosto. Nas artes, dá à imitação uma graça requintada e natural. Pode tornar-se um jogo intelectual no qual o sentimento é abolido. É pouco inventiva; mas adere tão de perto à realidade que acontece que a precede: antes mesmo que os acontecimentos estejam inteiramente formados, ela se exercita no teclado mais amplo de suas possibilidades.

Ser forte é construir ou destruir. É agir sobre as coisas visíveis; é dominá-las e colocá-las a seu serviço. Aquele cuja força parece comandar os seres mais do que as coisas ainda trata os seres como coisas; faz deles instrumentos dos seus desígnios. A força não precisa exigir para obter: isso seria sinal de que lhe faltam potência e segurança. Não é necessário que ela tenha consciência demasiado alerta de si mesma: o pensamento a atrasa e a dispersa. Vê-se até a força praticar uma espécie de ignorância voluntária. Ela é atenta a certa unidade no fim a atingir, mas é pouco sensível às diferenças nas circunstâncias: conta consigo para reduzi-las. Muitas vezes age ao inverso da reflexão: reúne em edificações os elementos que a análise deixa isolados; reduz a pó as obras que a paciência levantou lentamente.

Mas é preciso buscar, entre a sutileza e a força, um equilíbrio. O extremo da sutileza é sempre um retorno à simplicidade. A renúncia à força é frequentemente o sinal de uma força maior. A sutileza tem razão em procurar atingir, por uma espécie de cumplicidade, as disposições mais íntimas dos seres; mas é atenta demais à sutileza do seu jogo. A força tem razão em salvaguardar a nitidez do olhar e a retidão da intenção; mas dá importância demais aos efeitos materiais. Seria preciso inverter suas relações, mas, subordinando a sutileza à força, voltar a força para a conquista dessa unidade interior que a sutileza nos subtrai e reservar a sutileza aos detalhes da execução, a que a força é incapaz de atender. Evitar-se-ia assim ver a sutileza tornar-se flexível demais e a força, brutal demais. Pois é preciso que a força seja tão secreta e tão escondida que aja sem ser sentida, e que a sutileza seja tão direta e tão segura que apague até o próprio traço de um querer demasiadamente hábil.

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