Capítulo V. A atividade
1. Potência da atividade
A experiência mais dramática que posso fazer, assim que minha consciência se aplica a ela, é a desse movimento pelo qual mexo o meu corpo — por exemplo, o dedo mínimo — e que me revela o mistério da minha iniciativa e o milagre da minha potência. Ela nos torna presente e viva, a cada minuto, a frase de Goethe: No princípio era o ato, o ato que é o começo de todas as coisas. Todos os modos do ser são os modos de uma atividade que ora triunfa, ora sucumbe. Estou onde ajo. O ato é o primeiro motor pelo qual não cesso de criar, a cada instante, a minha própria realidade. Se me separo de todos os objetos e de todos os estados que me retêm e me dispersam para buscar, perseguindo indefinidamente a minha própria purificação interior, a essência radical do meu ser, não descubro nela nada além de um ato que, para se exercer, só precisa de um consentimento puro.
Os pessimistas pensam que o que caracteriza a atividade é apenas nos arrancar da dor e do tédio e, por conseguinte, nos distrair. Mas que vida é essa da qual a atividade tem a incumbência de nos distrair? Qual é o seu terrível segredo? Pode-se distingui-la da própria atividade? Só o ser que age a conhece, já que aceita penetrar nela e colaborar com ela. Mas então abandona todas as dúvidas, todos os pesares que, até então, de fato o impediam de viver.
O ato liberta o ser finito de todas as suas cadeias: do desejo, do medo, da preguiça e do tédio. Já não lhe permite pôr-se à parte da criação, mantendo ainda a pretensão de julgá-la; faz com que participe da potência criadora. Por isso nunca é preciso preocupar-se com o estado, que só exprime nossa limitação, mas apenas com o ato, que exprime nossa essência. Não se deve ter o olhar voltado para o mundo, mas apenas para a atividade que, a cada instante, ao mesmo tempo em nós e fora de nós, o faz ser.
Pois cada vida é um cumprimento, isto é, um ato que não cessa de se realizar; por isso, assim que nossa atividade fraqueja, sucumbimos às misérias do amor-próprio: tudo nos pesa e, o pior, é que somos um peso para nós mesmos. Mas, assim que ela se reanima, já não pode ter outro fim senão ela própria; já não deixa ao amor-próprio lugar para nascer. Pois ela é o nada que tem o poder de se tornar tudo, isto é, de se dar tudo.