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Capítulo IV. A mensagem do escritor

10. Servir ao próprio gênio

Toda a infelicidade das pessoas vem de que nada é mais difícil, para cada uma delas, do que discernir o próprio gênio. Quase todas o desconhecem, desconfiam dele e são ingratas para com ele. Chegam mesmo a querer destruí-lo para substituí-lo por um personagem de empréstimo que lhes parece mais brilhante. Todo o segredo da potência e da alegria é descobrir-se e ser fiel a si mesmo nas menores coisas como nas maiores. Até na santidade, trata-se de realizar-se. Quem melhor desempenha o papel que é o seu — e que nenhum outro pode desempenhar — é também quem está mais de acordo com a ordem universal: não há ninguém que possa ser mais forte nem mais feliz.

Toda a nossa responsabilidade recai, portanto, sobre o uso das potências que nos pertencem em particular. Podemos deixá-las perder-se ou fazê-las frutificar. Assim, nossa vocação só pode ser mantida se permanecermos perpetuamente à sua altura, se nos mostrarmos sempre dignos dela. O papel da nossa vontade é mais modesto do que se crê; é apenas servir o nosso gênio, destruir diante dele os obstáculos que o detêm, fornecer-lhe sem cessar um novo alimento: não é modificar o seu curso natural nem imprimir-lhe uma direção que ela escolheu.

Existe em cada pessoa um pensamento secreto que ela deve ter a probidade e a coragem de trazer à luz. Não deve preferir-lhe uma opinião estranha que lhe pareça mais elevada, mas que, incapaz de se nutrir em seu próprio solo, não ganhará ali crescimento algum. Não podemos esperar possuir outras riquezas além das que já trazemos em nós. Basta explorá-las, em vez de negligenciá-las. Mas elas são familiares demais para nos parecerem preciosas, e corremos atrás de outros bens que brilham mais e cuja posse nos é recusada. Mesmo que pudéssemos alcançá-los, só deixariam em nossas mãos a sua sombra.

No entanto, a confiança que se tem na própria vocação também apresenta perigos. Minha vocação não está feita de antemão; cabe a mim fazê-la: é preciso que eu saiba extrair, de todos os possíveis que há em mim, o possível que devo ser. Não devo sequer confundir minha vocação com minhas preferências — embora minha preferência mais profunda deva estar de acordo com minha vocação —, nem o chamado do meu destino com todas as sugestões do instante — embora o instante me traga sempre a ocasião a que devo responder. A sabedoria consiste em reconhecer a missão que sou o único capaz de cumprir: traí-la é substituí-la por algum desígnio emprestado e elevar-me a pensamentos mais vastos do que aqueles que posso portar.

As vocações individuais, na vida da humanidade, são como as diferentes faculdades na vida da consciência. Cada faculdade — a inteligência, a sensibilidade ou o querer — deve exercer-se segundo sua lei própria, na sua hora e nas circunstâncias que lhe convêm; de outro modo, a consciência não chegaria a realizar nem sua harmonia nem sua unidade; mas, quando ela se exerce como deve, é a alma inteira que age nela. Do mesmo modo, o destino da humanidade inteira está presente na vocação de cada indivíduo, contanto que ele a aceite e a ame.

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