Capítulo IV. A mensagem do escritor
9. Grandes homens
Imaginamos depressa demais que os grandes homens carregaram na vida essa figura de glória que a eloquência da nossa imaginação lhes empresta. O que os tornava grandes era muitas vezes mais acessível, mais simples e familiar; basta abrir os olhos para encontrar ao redor de nós muitas pessoas que têm tanta clareza no olhar, tanta pureza interior ou força de alma; mas nosso amor-próprio hesita em reconhecê-las e nossa preguiça só tem força para admirar aquelas que obtiveram um nome nas letras ou que a fortuna marcou com o seu signo. No entanto, as maiores coisas se fazem sob nossos olhos sem que imaginemos que são grandes, e elas são o ponto de chegada de muitas pequenas. E mesmo não há espírito medíocre que, em algum ponto, não possa ter vistas mais claras e miras mais longínquas do que o espírito mais profundo e mais vasto. Os maiores e os menores se reencontram idênticos diante dos acontecimentos essenciais da vida, tais como a morte, o amor ou a dor. E são às vezes aqueles que se julgavam os menores que então parecem os maiores.
Criar é sempre exercer alguma potência que recebemos: a verdadeira grandeza não está no valor do dom, mas no uso que consentimos em fazer dele. Assim, as ideias sempre se apresentam às pessoas inopinadamente e apesar delas: e a única diferença que existe entre elas é que umas sabem recolhê-las e outras não. O que caracteriza o gênio é prestar atenção a pequenas luzes que iluminam todos os seres humanos, mas que a maioria mal percebe: pois elas se apagam quase imediatamente se não se põe todo o cuidado em abrigá-las e reanimá-las.
Mas acontece também que a grandeza se revela a nós de um só golpe e, por assim dizer, nos inclina diante dela. Isso ocorre quando descobrimos um ser que só é grande pelo que é, e não pelo que faz, e que, através de todos os objetos aos quais sua atividade se aplica, nunca tem relação senão com o Todo. De um tal encontro retemos apenas a revelação de um mundo mais real do que aquele em que vivemos habitualmente e no qual esse ser que é grande parece viver sempre. Mas então ele nos parece capaz de bastar-se; e pensamos que, na multidão indiferente, ele não pode distinguir senão servidores e testemunhas, que não precisa de amigos, pois frui, sem intermédio, da verdade e do bem. O que poderia pedir a outros seres que possuem menos do que ele mesmo? Dir-se-á que seu dever é fazê-los participar dos dons que recebeu? Mas ele não recorre, para isso, a vontades particulares: sua simples presença tem um efeito melhor e mais seguro. Atrai então ao redor de si um círculo de espíritos atentos, que extraem dele como de uma fonte que não se esgota. Mas é seu destino dar-lhes sem os conhecer, não fazer entre eles diferença alguma, não conceder a nenhum deles o menor privilégio, fazer calar entre eles toda suspeita de inveja e produzir neles esse sentimento de admiração que envolve sua solidão e a consome.