Capítulo IV. A mensagem do escritor
6. Diálogo do autor e do leitor
Sentimos mais emoção ao reencontrar, num autor, os sentimentos que experimentamos em segredo do que aqueles de que damos testemunho, aqueles que estão em nós em germe do que aqueles que já desabrocharam. As obras do espírito têm por objeto um mundo que carregamos em nós e que muitas vezes é invisível aos nossos próprios olhos; o autor que no-lo revela adquire de imediato, conosco, uma intimidade misteriosa. No entanto, ele não fere o nosso pudor e não adquire sobre nós direito algum. Pois não força o nosso consentimento: as descobertas que fazemos, ao lê-lo, parecem vir de nós mesmos, e somos-lhe gratos por ter provocado esse abalo pelo qual descobrimos, no fundo da nossa natureza, tantas riquezas ignoradas.
Tudo o que se escreve é um diálogo consigo, isto é, com os outros seres humanos. Fala-se com eles, quer-se persuadi-los, e não se seguiria por muito tempo o caminho se não se ouvisse, a cada passo, suas respostas mudas. Elas mantêm e renovam indefinidamente o movimento do nosso pensamento.
Não é ser orgulhoso, é ser forte, envolver toda a personalidade no que se escreve. Mas é ser orgulhoso rejeitar sempre sobre os outros os erros de interpretação que podem cometer. Quase com certeza fomos nós que cometemos a primeira falta. O público e a crítica, ao procurar compreender-nos, colaboram conosco. É preciso ser-lhes gratos. Eles nos pagam pelo esforço que fizemos. Ajuntam-lhe o deles. Somos-lhes devedores por nos esclarecerem sobre o que deveríamos ter dito e, às vezes, sobre o que deveríamos ter pensado.
Mesmo no pensamento mais puro escondem-se algumas sombras. Ele é formado de diferentes raios de brilho desigual. Aquilo que ele encerra de mais vivo nem sempre foi alcançado. Pois nenhuma ideia é nossa; a mais humilde ainda ultrapassa a acuidade da nossa visão; e o olhar do outro, ao fixar-se nela, sempre acrescenta ao conhecimento que tínhamos dela. Assim, acontece que interpretações que parecem contradizer-se se completam e que correspondem, num mesmo horizonte banhado pela mesma luz, a perspectivas mais ou menos felizes, a olhares mais ou menos penetrantes.
Quem consome a vida escrevendo pode carecer de amigos reais; não cessa de enviar uma mensagem a amigos desconhecidos. Mas os ecos que recebe podem às vezes parecer-lhe um tanto rudes; e ele precisa acostumar-se a não conhecer as respostas mais puras, que muitas vezes são as mais silenciosas.