Capítulo IV. A mensagem do escritor
5. A escrita mais secreta que a palavra
Diz-se que a alma é visível no olhar; mas é na invisibilidade das palavras que ela torna sensível ao outro essa atividade transitória pela qual revela sua própria natureza ao formá-la pouco a pouco. O olhar não obedece à vontade tão docilmente quanto a palavra: revela, sem que o pensemos, nossos sentimentos e nossos desejos; mas, pela palavra, o ato vivo do pensamento se exprime à medida que se realiza.
Dir-se-á que é preciso atribuir à palavra uma superioridade sobre a escrita porque ela tem mais liberdade e menos preparo, porque dispomos dela mais constantemente, porque ela é acompanhada do olhar e da inflexão da voz, porque guarda um contato mais direto e mais vivo com aquele que a pensa, porque pode ser indefinidamente retificada e emendada para melhor se ajustar não apenas à forma da ideia, mas também à forma da alma que escuta, enfim porque ela não é obra da solidão, como a escrita, mas de um acordo que se procura entre seres separados? Compreende-se que muitas vezes se deseje reencontrar, pela escrita, alguns dos efeitos da palavra; o leitor, quando escrevo, deveria estar tão perto de mim que eu deveria sentir sua presença e que ele deveria sentir que lhe falo.
Mais ainda, a palavra muitas vezes obedece a uma inspiração mais premente do que a escrita: quando estamos sós, a inspiração nem sempre irrompe com tanta força; já não encontra eco para redobrá-la e sustentá-la. A escrita não nos mostra tão diretamente sua ação sobre o outro, não cria com ele uma comunhão atual e sensível. Então, às vezes lamenta-se não poder fixar a palavra pela escrita; mas há aí uma espécie de engano: pois, estando ausente o interlocutor, ela já não reencontraria o mesmo prestígio.
É que quem escreve escuta um outro deus do que quem fala, um deus mais oculto. Procura despertar no leitor potências mais profundas do que as da vida comum. E, quando nos alcança mais intimamente, é com palavras tão silenciosas que parece que ele se cala. A grosseria do som persiste ainda nas palavras mais delicadas; mas ele é tão velado na palavra escrita que mal se percebe. O ideal da escrita é pôr-nos na presença do pensamento todo nu. O movimento ou o fogo do olhar traem o ouvinte atento; mas, no leitor, o olhar de todo o ser se volta para dentro: às vezes parece que o pensamento se insinua nele sem o intermédio do corpo.
Escrever um livro é dizer a si mesmo seus próprios segredos. Mas, por ele, o leitor deve pensar que descobre os seus. Por isso, os melhores livros, aqueles que melhor revelam o leitor a si mesmo, frequentemente desconcertam os que acreditavam conhecer o autor.