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Capítulo IV. A mensagem do escritor

4. Continuidade nas obras do espírito

Qualquer pessoa pode escrever um belo verso para o qual não saberia encontrar um segundo, nem o corpo nem a rima. Qualquer pessoa pode encontrar um belo pensamento para o qual não saberia achar sustentação nem eco. Mas, embora a luz que nos ilumina de tempos em tempos possua um esplendor e uma pureza que parecem impossíveis de ultrapassar, as obras do espírito não podem limitar-se a fixar esses minutos privilegiados. Pode-se dizer, sem dúvida, desses minutos, que nos libertam do instante para nos revelar um presente eterno. Mas só uma obra que tenha continuidade é capaz de exprimir a continuidade da nossa vida e esse esforço doloroso pelo qual ela se formou pouco a pouco. Só ela deixa aparecer esses retoques sucessivos pelos quais o pensamento teve tempo de se refazer e enriquecer. Há, na acumulação dos momentos do tempo, um efeito que nos liberta da fuga do tempo e nos permite escapar ao seu eterno movimento. As únicas obras que têm grandeza são as que contêm em si a experiência e o labor de toda uma vida.

Qualquer pessoa viveu alguns momentos de exceção em que, seja no contato com um outro espírito, seja numa iluminação solitária, elevava-se acima da sequência dos acontecimentos, assim como do curso passageiro dos seus próprios estados; em que chegava sem esforço àquele cume que se crê ter sempre conhecido quando nele se está, que nos deixa miseráveis assim que o abandonamos e do qual experimentamos, num sentimento radioso de estabilidade e de certeza, a alegria de participar do desígnio secreto da criação. Mas esses momentos bem-aventurados não têm ligação entre si. São como clarões que se apagam e se acendem sem obedecer a lei alguma. Suas aparições sucessivas são separadas por grandes intervalos de sombra. Nunca se tem certeza de que não se desvanecerão, a cada vez, para sempre.

Uma grande obra pede a colaboração de todas as nossas potências espirituais. Ela quer que façamos um esforço para reter e reunir todas as partículas de luz que o destino nos distribui com generosidade intermitente. Ela resiste ao aniquilamento e ao esquecimento pela arte invisível que as ordena. A harmonia que nela reina é feita de uma multidão de toques sucessivos, pacientemente acrescentados uns aos outros. Mas é um pensamento pessoal que introduz entre eles a unidade; esse pensamento não foge do tempo, ele o domina reunindo, num só feixe, todos esses traços dispersos. Ele toma posse do que muda, impõe-lhe sua marca e lhe dá essa presença imutável em que o espírito faz a sua única morada. Uma grande obra capta todas as claridades que o olhar pode apreender. Ela nos dá uma disposição permanente delas: faz delas os membros de um corpo de luz que possui ao mesmo tempo a unidade e a vida.

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