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Capítulo IV. A mensagem do escritor

3. O contato com as coisas

O mais difícil nas obras do espírito não é mostrar potência na construção, nem engenhosidade na análise, nem graça no estilo; é manter uma comunicação contínua com o real. Mas as ideias têm um jogo espontâneo, e as palavras, um movimento próprio que seduz os mais prudentes e às vezes os faz abandonar o chão.

O contato com as coisas modera a imaginação e disciplina o pensamento; mas, ao mesmo tempo, não cessa de alimentá-los e enriquecê-los. As obras produzidas por uma meditação solitária muitas vezes têm grandeza e potência, mas uma grandeza e uma potência que assinalam o cume ao qual o indivíduo chegou pelo esforço do seu próprio gênio. Podem ter mais altitude do que horizonte: nelas se reconhece com frequência um desígnio arbitrário e voluntário em que a marca da pessoa é demasiado aparente. Os recursos que lhe pertencem e que permitiram que sua empreitada tivesse êxito às vezes só lhe serviram para construir um castelo de sonho e glorificar o seu amor-próprio.

Mas o contato com as coisas, que nos faz sentir nossos limites, também nos permite recuá-los. Há nas coisas uma luz à qual o nosso espírito não permanece insensível. Elas não são inertes nem mudas, mas cheias de vozes que se fazem ouvir por todos os que não as desprezam. Não as moldamos ao nosso capricho; elas nos resistem e nos iluminam: são a figura visível da verdade. O indivíduo, ao olhá-las, já não se deixa arrastar a confundir com o real a obra de sua imaginação. Esta, em comparação, lhe parece frágil e irreal; recebe das coisas a própria aparência que lhe permite subsistir. Mantendo o contato com as coisas, o espírito adquire mais força e mais extensão. Medindo o lugar que ocupa no mundo, deixa de encerrar o mundo nos limites do seu sonho: pois esse sonho, que pretendia ultrapassar a natureza, é sem cessar ultrapassado por ela.

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