Capítulo IV. A mensagem do escritor
2. Que a escrita deve captar o eterno e não o fugidio
Poder-se-ia pensar que o que caracteriza a escrita é eternizar certos pensamentos fugidios que, de outro modo, desapareceriam sem deixar rastro. Seu papel seria fixar o que jamais se verá duas vezes; poder-se-ia compará-lo ao papel que se atribui à pintura no impressionismo. Mas por que tantos esforços para guardar a imagem do que pereceu, quando o presente ainda solicita nossa atenção, nossa atividade e nosso amor? Na realidade, não deveríamos buscar no passado aquilo que nele está abolido e que jamais foi, no Ser, senão pura passagem, mas somente esse contato com uma realidade imperecível que ele nos permitiu obter por um instante e que é tanto mais comovente porque o tempo o dissipou de imediato. Esse contato, quando reencontrado, possui tanta mais pureza quanto mais se despojou de todo apoio corporal, de toda relação com os acontecimentos; adquiriu tal caráter de simplicidade e de espiritualidade que já não somos perturbados nem pelo medo de perdê-lo nem pelo esforço para retê-lo.
Assim, o papel da escrita não pode ser, como se diz, eternizar o que passa; é antes desprender do que passa aquilo que é eterno. Nada possui valor em nossa vida senão aquelas súbitas iluminações pelas quais descobrimos de repente, por trás do inconstante devir que arrasta e destrói tudo o que é, um mundo ao mesmo tempo imóvel e vivo, que ora se entreabre, ora se fecha, que, em comparação com o mundo em que vivemos, nos parece infinitamente distante e infinitamente belo; mas basta olhar, através das coisas mais familiares, para que elas nos permitam penetrar nele.
Um tal mundo só se revela a nós por bruscas escapadas; e, embora seja eterno, é frequentemente nos modos mais fugidios da nossa vida que melhor percebemos sua presença. Pois ele sustenta tudo o que está no tempo; mas ele próprio não desce no tempo. O papel da escrita é permitir-nos reencontrar o caminho até ele. Se ela cumpre sua função — que é guardar memória apenas daqueles momentos bem-aventurados em que nosso pensamento conseguiu penetrar nele —, deve permitir-nos ainda alcançá-lo quando a matéria nos oprime e o tempo nos dispersa. É, portanto, bem verdadeiro dizer que a escrita não tem por objeto guardar o que passa, mas antes abrir o nosso olhar, no interior mesmo do que passa, para aquilo que não passa. Ela deve superar o tempo, mas não romper sua lei, que é que tudo o que só é nele não deve deixar de perder-se nele.