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Capítulo IV. A mensagem do escritor

1. A escrita, instrumento de progresso espiritual

Para cada um de nós, a verdade aparece em relâmpagos; mas nosso espírito quase imediatamente recai em seu estado natural de inércia e de obscuridade. Sentimo-nos então como abandonados; e o esforço doloroso que fazemos para reencontrar a luz perdida só nos revela a nossa impotência. Mas, se conseguimos capturar essa luz pela escrita, tornamo-nos capazes de reanimá-la quando ela parecia extinta. Há momentos privilegiados em que a verdade passa diante de nós e nos roça para logo escapar; a escrita nos permite fazê-la renascer indefinidamente.

Mas a escrita tem outras vantagens. Como a palavra — e melhor do que a palavra —, ela permite que o pensamento, ao se exprimir, se realize. A palavra muitas vezes não traduz senão uma comunicação momentânea e ocasional com o outro. Mas a escrita supõe sempre uma longa conversa consigo mesmo, que aspira a tornar-se uma conversa com todos os seres humanos. É preciso que haja nela riqueza e profundidade suficientes para que permaneça verdadeira além das circunstâncias em que nasceu: de outro modo, ela não satisfaz senão um interesse de curiosidade. Um livro não deve nos divertir, conduzindo-nos por lugares do tempo e do espaço que nos são estranhos e dos quais retiramos nosso pensamento assim que a leitura termina. É preciso que ele possa comover, a todo instante, as partes mais essenciais da nossa natureza, que nos revele elementos de nós mesmos que carregamos em nós continuamente.

Os melhores livros nada nos fazem conhecer que nos seja exterior: eles nos recordam vários encontros em que a verdade que nos trazem já se nos revelara espontaneamente. Tínhamos dela uma visão rápida e evanescente: agora ela se transforma em iluminação. Deixa de ser incerta e nebulosa: a pureza do seu contorno se desenha. Nossa confiança na segurança do nosso olhar cresce: até então não ousávamos permitir-lhe demorar-se no sulco leve que a verdade traçara na superfície da nossa consciência. Agora que essa verdade parece nos ser proposta pelo outro, ousamos tomar posse dela: tornamo-nos capazes de contemplá-la, de experimentá-la e de nela nos estabelecer. Somos libertados dessa insegurança que produziam em nós os apelos tímidos, prementes e ansiosos da nossa consciência solitária: encontramos neles um eco na comunhão humana; e esta, agora, povoa a nossa solidão — aprofundando-a, em vez de rompê-la.

O primeiro dever do escritor deve ser elevar-se suficientemente acima de todas as circunstâncias de sua vida particular para fornecer a todos os seres um apoio de todos os instantes e mostrar-lhes a si mesmos tais como gostariam de ser sempre.

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