Capítulo III. O nascimento das ideias
9. Ambulare in hortis Dei
Assim como o corpo está colocado no espaço, a alma está colocada no espírito puro; e, assim como o movimento do corpo nos revela sem cessar novos objetos, o movimento da atenção nos revela sem cessar novas ideias. Mas, assim como um objeto não é propriedade do olho que o vê, a ideia não é propriedade da alma que a pensa. O conhecimento é uma viagem cheia de surpresas no mundo das ideias: cada um dirige sua própria marcha, mas ninguém prevê as revelações que lhe serão feitas. E os espíritos são como os corpos: há uma semelhança entre todos os que habitam o mesmo lugar e contemplam habitualmente o mesmo horizonte.
Que coisa admirável é a meditação! Sem o emprego de meio material algum, fazendo calar apenas o amor-próprio, fechando a porta a todas as solicitações do exterior, recusando o acesso a todas as preocupações individuais que nos retêm e nos distraem, pela simples disposição da atenção que se entrega à luz interior e escuta as vozes que nascem dentro, graças à humildade de um simples ato de consentimento, vemos erguer-se em nós um espetáculo milagroso: as ideias adormecidas despertam, levantam-se, reúnem-se em coros, desaparecem e reaparecem como se quisessem desvelar-nos a sua forma sempre semelhante e sempre variável, a flexibilidade e o ritmo de sua vida secreta, a constância móvel de sua eterna presença e esse belo acordo que as une como filhas de um único amor.
Elas não aceitam ser apreendidas por uma mão demasiado ousada, nem sequer ser olhadas com cobiça excessiva. Não se dobram à nossa vontade, nem aos artifícios grosseiros do nosso método. Não morrem; mas escapam assim que queremos captá-las ou mesmo apenas retê-las. Vozes silenciosas, formas sem contorno, passos que permanecem, as ideias nos introduzem num mundo luminoso em que a nossa alma nasce para a vida eterna. Elas são estranhas, elas próprias, ao nascimento e à morte. Não deixam de existir quando deixamos de contemplá-las; não ocupam lugar algum; não mudam de lugar; não penetram em nós; antes nos acolhem entre elas, e nossa alma ainda tímida se abre à verdade e ao amor ao se tornar sensível à sua divina presença.
Mas como dirigir o nosso olhar para elas antes de as conhecer? E, se estão todas juntas na orla da atenção, qual delas responderá ao nosso chamado? Nosso corpo está sempre retido num ponto do espaço, nossa vida sempre engajada numa aventura, nossa sensibilidade sempre abalada por uma emoção; basta, para penetrar no mundo das ideias, não nos afastarmos desses acontecimentos, mas consentir em descobrir o sentido deles e, por assim dizer, envolvê-los na atmosfera radiosa do desinteressamento puro. Cada um deles é o toque sensível de uma ideia. Que ele seja também o pórtico pelo qual teremos acesso ao mundo da graça divina: incapazes, sem sermos destruídos, de nos elevar à unidade perfeita, nós a sentiremos por toda parte presente e como difundida na variedade incontável desses belos seres de pensamento, imortalmente jovens e imortalmente puros, que não cessam de nos revelar, sem a alterar e sem jamais a esgotar, todas as faces da verdade.