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Capítulo III. O nascimento das ideias

8. Penetrar no mundo das ideias

É preciso que cada um de nós se torne semelhante a um ser espiritual e a uma espécie de puro demônio; que não escute senão suas vozes secretas, mas numa calma interior que nenhum frêmito do corpo venha mais perturbar. Pois o verdadeiro mundo é o mundo das ideias e não o mundo das coisas. Assim que nele penetramos, sentimo-nos iluminados; nossa própria natureza, nosso destino, a conduta que devemos manter, nossas relações com os outros seres nos aparecem sob uma luz móvel que alegra o nosso olhar e imanta a nossa vontade. Assim que dele saímos, somos entregues às forças cegas da natureza: já não sentimos senão a nossa escravidão e a nossa miséria. Só reencontramos a luz perdida voltando-nos para esse mundo invisível: ele existe independentemente de nós, já que pudemos deixá-lo; para que ele volte a se revelar a nós, é a nós mesmos, agora, que precisamos deixar para trás.

Não criamos as ideias. Elas são os elementos de um universo de pensamento, como os corpos são os elementos de um universo de matéria. Elas se revelam a nós por um ato da inteligência, como as coisas se revelam a nós por um ato do olhar. E, assim como nossa atividade prática se apodera das coisas e as põe a serviço do corpo, nossa atividade pura escolhe entre as ideias e, pelo arranjo que delas faz, compõe a nossa figura espiritual. Assim, pode-se dizer que todas as ideias que vêm iluminar o nosso espírito são de Deus. Mas a ordem que estabelecemos entre elas é humana. Cabe-nos apenas escolher o caminho no qual nosso pensamento se engaja: qualquer que seja esse caminho, materiais incontáveis nos são oferecidos; cabe a nós construir com eles a nossa própria obra.

No mundo do pensamento, fazemos a cada passo descobertas que nos espantam e nos arrebatam. O que caracteriza o sábio é saber fazer bom uso de tantos tesouros e guardá-los eternamente para alegrar seus olhos e seu coração.

Não é, pois, de admirar que nem sempre dominemos nossos pensamentos, e que eles também nos dominem. Parece que lhes damos movimento, mas esse movimento nos arrasta. E, quando a descoberta irrompeu, somos como o espectador que foi buscar o espetáculo que tem diante dos olhos, mas que não o criou: apenas o pressentia antes de conhecê-lo; agora o contempla com surpresa e admiração e, quase imediatamente, deixa-se prender por ele.

As ideias nos pertencem como nos pertencem nossos filhos. Somos senhores da atenção como somos senhores da geração. Mas a hora do nascimento é, para nós, uma hora de ansiedade: pois não sabemos de antemão que presente o Céu nos enviará. E nossos filhos vivem diante de nós e não para nós, com uma vida na qual a nossa se reconhece e se prolonga, mas que, no entanto, nos ultrapassa e nos maravilha.

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