Capítulo III. O nascimento das ideias
6. Violência e calma da inspiração
Parece haver sempre na inspiração uma espécie de violência que se exerce sobre nós: todas as potências da nossa vida interior são, por assim dizer, erguidas e levadas acima de si mesmas sem que nos seja pedido consentimento algum. Mas essas grandes emoções, esses movimentos confusos que abalam todo o ser não devem ser procurados: antes seria preciso contê-los do que provocá-los. Eles só têm valor pela fonte que os alimenta: ela é muitas vezes impura. Não há paixão que, no momento em que nos toma, não produza uma agitação da carne. Não devemos nos comprazer nesses toques misteriosos que assinalam a fraqueza do nosso corpo e não a perfeição da potência que o atravessa.
Mas há sempre na inspiração um esforço doloroso que a faz assemelhar-se a um parto ao mesmo tempo inevitável e cheio de ímpetos voluntários. Ela nos mostra, com uma admirável nitidez, que toda criação é, ao mesmo tempo, uma necessidade natural e uma libertação. Assim, ao lado da alegria que ela nos dá, é indispensável que nos faça sofrer; pois ela testemunha um desprezo absoluto pelo nosso ser individual, que é momentaneamente recalcado, que deve retrair todas as suas potências próprias numa espécie de imobilidade e de sono para deixar de ser um obstáculo e tornar-se um caminho para o fluxo que o invade, servindo apenas a um deus estranho de que se tornou o veículo. Ele conserva ainda uma meia-consciência de si mesmo, mas é para sentir essa coação que se exerce sobre ele, para perceber, num pesar involuntário, que todos os bens aos quais estava ligado — suas lembranças, seu saber, seus afetos e seus desejos — se tornam inúteis, agora que ele é arrebatado por um movimento mais poderoso e de origem mais alta. Mas o eu individual se recusa a sucumbir: quer conduzir seus assuntos por si mesmo; defende sua própria faculdade de examinar e julgar como se ela fosse a salvaguarda do seu próprio ser.
No entanto, ele deseja que aquilo que busca um dia lhe seja dado, e é preciso que, então, consinta em se deixar vencer. Ele deve aniquilar-se para ser inteiramente preenchido. E basta que cesse o seu ciúme para que sinta uma graça sobrenatural penetrar nele, pela qual é, ao mesmo tempo, dissolvido e regenerado. Mas então a inspiração deixa de se parecer com uma exaltação interior pela qual produziríamos um mundo novo numa espécie de embriaguez. Quando atinge sua forma mais perfeita e mais pura, o eu já não é forçado por ela: ela não é senão uma calma e até um vazio da alma, uma abertura para um mundo ao mesmo tempo muito profundo e muito próximo, cujo acesso nos era recusado até então e que, de repente, nos é revelado.