Capítulo III. O nascimento das ideias
5. Nascimento das ideias e das palavras
Para compreender o mistério da criação, basta tornar-se atento a esse momento cheio de deleite e de ansiedade em que assistimos, na vida do espírito, ao nascimento das ideias. Inventar ideias é inventar o mundo. A ideia é o ato da inteligência criadora.
Admitamos que a ideia não seja senão um nome. É preciso então devolver ao nome seu valor primitivo e sagrado. Se ele é capaz de carregar a ideia, é porque é o talismã que nos permite tomar posse de todas as coisas ao nomeá-las, apreender-lhes a sonoridade interior, a concavidade misteriosa e o sentido. É preciso proferi-lo, ao menos em voz baixa, para que se estabeleça entre a ideia e o espírito esse comércio sutil, que produzirá um outro comércio ainda mais sutil entre quem fala e quem escuta.
As palavras frequentemente levam nosso pensamento mais alto e mais longe do que suas forças, por si sós, teriam podido. Elas abrem o olhar para um vasto horizonte de luz, onde ele a princípio não percebera senão clarões dispersos. E o pensamento sempre encontra nas palavras uma espécie de promessa — ou até de risco — que desperta suas esperanças e às vezes as ultrapassa.
Há entre o nascimento das ideias e o das palavras uma identidade tão perfeita que a própria palavra inspiração está aí para traduzi-la: o que caracteriza a inspiração é produzir, entre o pensamento e a linguagem, essa correspondência milagrosa que a razão sempre procura justificar e que a deixa ao mesmo tempo plena e impotente. Quando encontramos a verdade, a ligação das ideias e das palavras se nos apresenta com tal caráter de facilidade e de necessidade que ela é incapaz de desfazer-se. Se nos parece possível mudá-la, mesmo por brincadeira, temamos tê-la adotado também por brincadeira, ter apreendido da ideia apenas a vestimenta e não o corpo.
É que a palavra é o corpo da ideia e é uma só com ela: não é um signo escolhido entre mil para exprimir uma ideia já presente. Pois a ideia deve encarnar-se para ser; até então ela permanece nos limbos; mas, assim que anima a palavra mais comum, ela vive e lhe dá vida; e a palavra adquire uma modulação interior pela qual parece nos revelar um segredo do mundo espiritual. Pouco importa que se possa contestar agora a realidade da inspiração e sustentar que ela se reduz a uma vigilância atenta e minuciosa dos movimentos mais secretos do nosso pensamento. Vigiar esses movimentos não é, contudo, produzi-los; escavar o canal não é fazer a água correr por ele. Reconhecer o que é preciso negligenciar e o que é preciso reter é supor que já se possui. É ajustar o pensamento aos nossos desígnios, não lhe dar o ser.