Capítulo III. O nascimento das ideias
4. Fidelidade à mesma ideia
O espírito só pode manter sua unidade e sua força quando se prende a uma única ideia. Pois não há ideia que não seja grande o bastante para preencher toda a capacidade do espírito e, até que o tenha feito, não a possuímos por inteiro. Importa conservar ao olhar a sua unidade, em vez de lhe oferecer um espetáculo demasiado vasto. Mas cada ideia é um foco em torno do qual se propagam ondas de luz que dilatam sem cessar o seu horizonte. Enquanto não tiver esgotado sua potência de irradiação, não se deve deixá-la escapar.
Pois só há uma ideia capaz de exprimir a nossa vocação intelectual; só há uma perspectiva através da qual a nossa consciência pessoal é capaz de abarcar a totalidade do mundo: fora dela, ainda podemos imaginar o real, mas já não o perceber. Carregamos em nós, durante toda a nossa vida, às vezes sem o saber, um mesmo pensamento. Ele reaparece sem cessar em nossa consciência; mas nem sempre o reconhecemos porque, no momento em que nos mostra uma de suas faces, vela-nos todas as outras: ele consente, por assim dizer, em nos revelá-las apenas uma a uma. Assim, nunca terminamos de recolher toda a luz; procuramos sempre possuí-la mais do que a possuímos; ela é para nós, ao mesmo tempo, familiar e desconhecida: nunca deixa de nos trazer uma nova revelação.
Não procuremos mudar a visão do mundo que nos é própria, pois basta guardá-la para que ela não cesse de se ampliar: o mundo inteiro pode caber nela. Não procuremos abandonar a ideia que melhor responde ao voto do nosso ser: pois ela é capaz de despertar todas as potências da nossa consciência.
É verdade que nosso pensamento vive de mudança; mas essa mudança não deve vir dele: ela marca a influência da realidade, que o solicita e o pressiona, a variedade das circunstâncias às quais ele precisa se dobrar. Mas nosso pensamento tira sempre de uma mesma ideia sua luz e seu impulso: por humilde que essa ideia pareça, ela pode ter em nós uma ressonância infinita; e não se é iluminado nem comovido sem reconhecer sua presença, que sempre nos traz a mesma força e a mesma doçura.