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Capítulo III. O nascimento das ideias

3. Flexibilidade da atenção

Como poderíamos governar nossos atos de outra maneira senão por nossos pensamentos? É pelo efeito de certos pensamentos que contemos nossa vontade ou que a deixemos ir. Há, portanto, contradição em admitir que somos responsáveis por nossos atos sem sermos responsáveis por nossos pensamentos. Na realidade, não há senão a atenção que dependa de nós. E nossos pensamentos são atos — invisíveis, é verdade —, mas os únicos que nos justificam ou nos condenam.

Somos nós que conduzimos o nosso espírito, já que a atenção depende de nós; e, como só vivemos entre nossos pensamentos, o que caracteriza a atenção é, ao que parece, escolher o domínio em que gostamos de viver. Ela dá ao olhar a sua direção; mas este nos revela, a cada vez, um espetáculo novo que não podíamos nem esperar nem prever. Ser atento não é forçar-se a pensar certas coisas. É manter em si uma certa abertura que permite acolher todos os apelos que as coisas nos fazem.

Mas, no esforço da atenção, às vezes damos ao espírito uma tensão que o paralisa; é preciso, ao contrário, aprender a conservar-lhe a flexibilidade e a mobilidade. O espírito nunca deve se aplicar a uma ideia de tal maneira que já não perceba sua complexidade nem sua ligação com todas as outras; nunca deve se aplicar a uma cadeia de ideias de tal maneira que perca essa agilidade sem a qual é incapaz de apreender todas as claridades que o atravessam e que ultrapassam o seu desígnio e, por vezes, a sua esperança. Assim, é permitido achar o método de Descartes um tanto severo e mesmo um tanto estreito.

Nada se deve pedir a mais ao ser humano do que dispor de sua atenção; mas ele deve dá-la pura, humilde, flexível, libertada de toda preocupação e de todo amor-próprio, sem pressa e sem demora, não lhe permitindo nem antecipar, nem deixar passar o que lhe é oferecido, nem desejar que seja outro, nem misturar-lhe alguma segunda intenção, nem turvar sua transparência por um desejo ou por um esforço. A atenção perfeita é um ponto em que a atividade e a passividade se confundem, sendo a primeira um puro consentimento e a outra o próprio dom ao qual se consente.

Acontece que realizamos melhor um intento particular quando ele se encontra envolvido em outro mais vasto, que dá ao primeiro mais força e mais ímpeto. Assim, o pensamento constante de Deus dá mais luz a todos os nossos pensamentos isolados. Só a atenção que não é retida por nenhum interesse humano permanece sempre inteira e indivisível; ela eleva todos os objetos aos quais se aplica. Nesse ato único pelo qual estamos atentos à vida, todos os acontecimentos tomam seu lugar, seu valor, sua iluminação, sem que nenhum deles consiga nos distrair. É uma atenção a Deus que é a atenção de Deus em nós.

Ao contrário, a atenção aplicada a um objeto particular nos divide, porque é incapaz de nos ocupar por inteiro; ou então é preciso que ela se torne semelhante ao amor, que é o despertar de toda a consciência e que, num único objeto, nos torna presente todo o universo.

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