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Capítulo III. O nascimento das ideias

2. Disciplina da atenção

O número de ideias é, às vezes, uma fraqueza para o espírito tanto quanto sua raridade: não convém que o espírito esteja vazio, nem que transborde. Seu papel é apreender, mas com a condição de poder abraçar. Atividade demais lhe prejudica, e atividade de menos também. Nada lhe é mais difícil do que encontrar um passo medido, que siga um curso natural e harmônico.

Alguns ficam obstruídos pela abundância de ideias que brotam naturalmente do seu próprio fundo e se tornam incapazes de acolher qualquer chamado que venha de fora: o movimento que os anima não deixa neles nenhuma superfície plana sobre a qual a influência das coisas possa se inscrever. Outros são plásticos demais e aptos a receber impressões demais; mas não têm movimento suficiente para que a ação que os abala faça caminho em sua vida interior: contentam-se em trazer, a cada instante, a marca do que sofrem.

O espírito deve sempre conciliar em si duas qualidades contrárias: a extensão, que lhe permite abraçar um vasto domínio em que a multiplicidade das formas do ser revela toda a riqueza do mundo, e a profundidade, que lhe permite descer bastante longe em si mesmo para descobrir ali a raiz de tudo o que é. Não deve ter abertura demais, pois se tornaria como um espelho que, para refletir coisas demais, perderia toda a sua limpidez; nem abertura de menos, pois se tornaria como um espelho que, para conservar sua limpidez, deixaria de refletir coisa alguma.

A atenção deve permanecer tranquila, confiante e sempre em ócio. Há, às vezes, nela uma espécie de avidez que provém do amor de si, que busca antecipar-se ao contato com o real e que atrapalha o espírito em vez de servi-lo. Todos os seres humanos têm luz suficiente; mas são poucos os que têm simplicidade suficiente para se contentar com ela. A maioria está cheia de impaciência e salta além do que vê; assim, incapazes, ao mesmo tempo, de recolher a luz que lhes foi dada e de dar a si mesmos aquela que cobiçam, permanecem sempre na escuridão.

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