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Capítulo III. O nascimento das ideias

1. Da acolhida que devemos dar às ideias

O pensamento não se deixa provocar pela vontade. Há nele uma espécie de independência rebelde. Quando fala, às vezes diz o contrário do que desejávamos ouvir; por isso as pessoas nem sempre se queixam do seu silêncio; chega mesmo a acontecer que murmurem para abafar sua voz. Ou então ele se cala quando queremos obrigá-lo a falar; pois não se deve consultar, fora de propósito, o oráculo interior: então é o sacerdote que nos responde, e não o deus.

Podem pedir-nos que tenhamos os olhos sempre abertos, mas não é certo que um belo espetáculo lhes seja oferecido; que tenhamos a atenção sempre desperta, mas não é certo que uma verdade venha ao seu encontro; que tenhamos um consentimento sempre pronto, mas não é certo que ele seja solicitado. No entanto, se a luz que nos envolve a todo instante parece recusar-se a nós, é porque primeiro nos recusamos a ela; é porque não soubemos abrir-lhe passagem até nós. Mas a tarefa é difícil, porque exige tanta simplicidade: assim acontece que, no momento em que a graça já se aproxima de nós, nossa concupiscência desperta e a repele pelo próprio esforço que faz para agarrá-la.

Mesmo quando a ideia se ofereceu, ainda é difícil fazer dela um bom uso. Para conservar o espírito livre, importa não nos determos nela. Corrompemos todos os bens que recebemos pelos esforços que fazemos para retê-los e pela insistência com que procuramos esgotar sua fruição. É em sua primeira revelação que a luz é mais bela; quando a fixamos por tempo demais, ela se irisa. Em todo conhecimento há um último ponto que não posso ultrapassar sem que o conhecimento se turve.

Mas, embora a vontade não deva nem prolongar nem forçar o olhar da atenção, nenhuma ideia, contudo, pode nos pertencer se ela não tiver, em nós, sofrido uma lenta incubação; se não a tivermos guardado por muito tempo nas dobras da nossa vida interior, quase sem pensar nela e, contudo, sem cessar de alimentá-la. Então acontece que, quando a consciência volta a iluminá-la, ela nos parece tão milagrosa quanto aquelas coisas tão próximas e perpetuamente diante de nossos olhos que sustentam toda a nossa existência sem que precisemos vê-las. E, assim que a vemos, ela se ergue diante de nós, pura, firme, segura de si mesma, com um contorno fino, sutil e de um só traço, como um ser vivo.

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