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Capítulo II. O conhecimento

9. Conhecimento e criação

O conhecimento é uma espécie de cumplicidade entre o real e nós. Não se pode conhecer um objeto senão tentando imitá-lo, reproduzi-lo pelo gesto, até o momento em que o gesto, concluído, se encontra, por assim dizer, suspenso numa espécie de imobilidade suscetível de ser contemplada. Todo conhecimento é um começo de metamorfose. Só se conhece a verdade se se torna veraz, e a justiça, se se torna justo; o crime, se se torna criminoso — ao menos pela imaginação. O conhecimento não apenas imita a obra da criação, mas colabora com ela. Ele só é fiel se é eficaz. Distingue-se sempre do real por sua imperfeição; mas o real nada é além do último estado do conhecimento.

Assim, a verdade nunca é contemplação pura. A única evidência capaz de tocar nossa inteligência toca também nossa vontade: ela exprime uma ordem que deve ser ao mesmo tempo percebida e amada. Ela nos convida a agir; e basta descobri-la para que nos pareça tê-la criado e ter interesse em mantê-la. De outro modo, o conhecimento é separado da vida: ele dá ao ser humano uma verdade separada, da qual a vida zomba ao primeiro encontro.

Há um conhecimento que é uma servidão do espírito em relação ao objeto. Há outro que liberta o objeto de sua inércia e o eleva até a dignidade do espírito: em vez de ser um peso para o espírito, dá-lhe um movimento mais sutil; põe em jogo todas as potências da consciência e realiza sua unidade. Nesse cume em que ele nos estabelece, não é apenas a diferença entre o espírito de fineza e o espírito de geometria que se vê abolida e ultrapassada, mas também a diferença entre o pensamento e o querer.

A verdadeira ambição do conhecimento não pode ser a de dominar a matéria: o conhecimento não está a serviço do corpo. Há nele uma forma de ação infinitamente mais sutil: por ele o espírito age sobre si mesmo e sobre todos os espíritos. Pois todos os seres humanos contemplam a mesma verdade; todos recebem a mesma luz, que os torna capazes de entrar em comunicação uns com os outros e de criar entre si um acordo espiritual de que o mundo é o instrumento e Deus, a testemunha. Só podemos amar a verdade porque amamos todos os seres e porque é ela que os une.

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