Capítulo II. O conhecimento
8. Espetáculo ou comunhão
Há no conhecimento esta contradição secreta: ele exige sempre, entre quem conhece e o conhecido, uma diferença, sem a qual não seria um ato do pensamento, e, no entanto, uma identidade, sem a qual não poderia pretender a verdade alguma. Ele é obrigado a separar-se do seu objeto para nascer e a reunir-se a ele para chegar ao termo; mas, nessa reunião, o espectador desaparece e o conhecimento se abole ao consumar-se.
Dir-se-á que ele não procura resolver-se no seu objeto, mas, por assim dizer, resolver o objeto em si? No entanto, assim como só percebemos o que é opaco à luz, só concebemos o que resiste à inteligência. Suponhamos que a luz se espalhe num meio perfeitamente transparente, ar ou vidro, sem encontrar obstáculo algum que a detenha, a quebre ou a disperse; é evidente que, na perfeição de sua essência revelada, o mundo — cujos recantos ela penetraria por completo — se esvaneceria como uma impureza.
A contradição do conhecimento adquire uma força de comoção infinita quando se trata do conhecimento que podemos ter de nós mesmos: pois todo esse conhecimento reside no duplo movimento pelo qual é preciso afastar-se de si para poder perceber-se como espetáculo e retornar quase imediatamente a si para realizar essa exata sinceridade que faz parecer ilusório esse próprio espetáculo que acaba de nascer.
Em Deus, o ato do conhecimento é perfeito porque não se distingue do próprio ato da criação. Quanto a nós, não passamos de espectadores do mundo criado e não podemos senão contemplar sua existência e sua natureza. Contudo, à medida que o conhecimento se aprofunda, o mundo se torna mais presente para nós; mas não é por sua imagem, que pouco a pouco se apaga, e sim por sua ação, que nos penetra mais. Dir-se-á então que a consciência é destruída? Parece, antes, que ela muda de natureza. Ela obtém uma espécie de excedente; é menos iluminada, mas mais iluminadora, pois tende a unir-se ao próprio princípio que distribui a luz. A distinção entre o real e ela se abole, não mais numa identidade imóvel, mas numa comunhão viva. Ela participa da potência criadora; a atividade que exerce imita aquela que reina no universo, a ela responde e a prolonga.