Capítulo II. O conhecimento
7. Juventude do conhecimento
Todo conhecimento deve possuir um frescor e uma novidade perpetuamente renovados, uma inocência sempre renascente; sem isso, deixa-se de sentir o contato do nosso espírito com o real. Ele deve nos revelar o universo a cada instante como se nos fizesse assistir à sua gênese. Quem encontra a verdade, em vez de continuar a mover-se no círculo fechado de seus sonhos, olha de súbito para o que está diante de si e crê vê-lo pela primeira vez. O mundo já não lhe traz senão conhecimentos familiares que lhe parece ter tido sempre e que, no entanto, não cessam de nascer.
Muitas vezes as lembranças velam e obscurecem nosso conhecimento, em vez de servi-lo. Elas retiram do olhar sua clareza e sua penetração: são como imagens que já recobririam a retina no momento em que ela acolhe a luz do dia. Mas as coisas reencontram sua perfeita nudez no espírito puro: é sua espiritualização que as faz nascer sem cessar; é ela que nos dá a incomparável emoção de já as conhecer e, no entanto, descobri-las.
É que só há conhecimento quando a inteligência se exerce; ora, a inteligência está em nós, mas vem de mais alto do que nós: ela produz sempre em nós uma nova revelação. Podemos abrir-nos mais ou menos à sua ação, mas essa ação é sempre, para a consciência que ela surpreende, tão jovem quanto o primeiro dia, como a luz para o olhar.
Diz-se às vezes que se conhece bem uma coisa quando ainda não se a conhece bem o bastante para poder exprimi-la. É que, então, ela ainda está tão viva que não pode desprender-se de nós; ainda não é um objeto que passa de mão em mão e que todos são capazes de tomar ou de deixar.
Nenhum conhecimento se obtém aprendendo um saber já formado; isso não passa da sombra do conhecimento verdadeiro. É um pedregulho no caminho: encontra-se e põe-se na coleção; mas é também o obstáculo contra o qual se tropeça. O conhecimento é ele próprio o caminho: e os mais modestos ainda têm de segui-lo, os maiores, de traçá-lo.