Capítulo II. O conhecimento
6. Humildade do conhecimento
O verdadeiro conhecimento consiste em apagar-se diante do objeto. Os que melhor são capazes de se apagar recebem, de fora e de dentro, os toques mais numerosos e mais delicados. O respeito pela experiência externa e interna exprime uma perfeita modéstia diante do universo e uma perfeita piedade diante de Deus.
Muitas pessoas sentem um prazer malicioso em descobrir os segredos da natureza e um prazer conquistador em dominá-la, submetendo-a aos seus desígnios; mas sente-se uma alegria mais serena e mais luminosa em contentar-se em percebê-la. Só se julga as coisas com retidão quando se renuncia à soberania que o eu demasiadas vezes se arroga sobre elas; então, no espelho liso e claro da inteligência, torna-se possível receber sua forma pura. O verdadeiro conhecimento não é uma exaltação do amor-próprio que procura reinar sobre o mundo para o escravizar, mas uma abdicação do amor-próprio que se inclina diante dele com admiração e docilidade; ele é suficiente quando nos permite reconhecer nele o nosso lugar e desempenhar nele o nosso papel com simplicidade e discrição.
É preciso que o ser humano não recuse nenhum dos conhecimentos que se lhe oferecem por acaso ou por vocação. É preciso que ele não busque nenhum. A maioria dos conhecimentos nos é tão exterior quanto os bens materiais; são inúteis e incham o espírito, em vez de iluminá-lo. O número de conhecimentos que bastam para produzir a sabedoria é muito pequeno; e são conhecimentos muito simples, acompanhados de uma evidência ao mesmo tempo muito profunda e muito doce. Mas são justamente esses que tendemos a esquecer ou a desprezar em proveito de certos conhecimentos curiosos e longínquos, que não têm relação com a nossa vida e que pensamos dever surpreender o outro e nos dar renome.
É que o amor-próprio se interessa menos pelo conhecimento em si do que pelo orgulho que dele pode tirar; rebaixa-o se acredita encontrar nesse desprezo a menor vantagem; compraz-se em ridicularizar todos os que se deixam vencer depressa demais; muitas vezes pensa elevar-se inventando razões sutis para duvidar das verdades mais bem estabelecidas. Mas o conhecimento é uma comunhão com o real e não uma derrota nem uma vitória: é um confronto entre o universo e mim; o universo se olha em mim como eu me olho nele. E, quando esses dois olhares se cruzam, irrompe uma luz que o menor movimento do amor-próprio basta para turvar.