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Capítulo II. O conhecimento

5. Volúpia de raciocinar

Há, na prontidão para raciocinar, uma espécie de volúpia que ainda é uma volúpia do amor-próprio, da carne e do mundo. Não se vê ninguém que, se for capaz de consegui-lo, não sinta complacência pelos jogos sutis da dialética: é que eles demonstram sua habilidade e lhe prometem uma vitória. Ele tem menos gosto pela verdade, cuja evidência o humilha, do que pelo argumento, cuja invenção o lisonjeia. São os argumentos sem matéria, ou os que parecem arruinar uma verdade comum, que lhe dão os prazeres mais vivos. Muitas vezes busca justificar, por jogo, aquilo de que não tem certeza. Chega mesmo a deleitar-se em enganar a si mesmo tanto quanto em enganar o outro.

No entanto, não se pode perceber claramente a verdade de uma coisa sem perceber suas razões. As razões põem a verdade ao alcance do nosso espírito e nos dão a ilusão de criá-la e de assistir à sua gênese. O raciocínio se assemelha ao tato: como a mão do cego que percorre sem interrupção uma superfície lisa cuja totalidade jamais abarca, é preciso que ele nos entregue, uma após outra, uma série de razões cuja continuidade deve nos fazer sentir. Mas a visão nos revela o objeto num só olhar. Assim, quem percebe a verdade por um ato de contemplação encontra-se, de imediato, acima de todas as razões. Nem o conhecimento do que enche o mundo no presente, nem o conhecimento de mim mesmo ou de Deus, são conhecimentos por razões.

Mas, ao me obrigar a ajustar todos os meus conhecimentos particulares, a dialética pode romper o contato com o real e engendrar todos os artifícios. Mil contradições nascem sem cessar das limitações e das refrações que a verdade necessariamente sofre na consciência de um ser limitado. Não devemos permanecer no terreno em que elas nasceram para buscar entre elas um laborioso arranjo; é preciso elevar-se a um cume mais alto, de onde se pode abarcar um horizonte mais vasto no qual, por si mesmas, elas se conciliam.

Assim, há um certo gosto pelo raciocínio, que é um gosto da habilidade e dos caminhos cheios de desvios: ele traz a marca do amor de si. Libertamo-nos dele por uma purificação interior que deixa ao raciocínio seu papel de auxiliar e lhe pede que nos conduza, pouco a pouco, até um ato de simples visão; é somente quando ele o realiza que o indivíduo se esquece de si, que sua inteligência se exerce e que a verdade se lhe torna presente.

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