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Capítulo II. O conhecimento

4. O ardor da inteligência

O ardor da inteligência é um ardor de todo o ser; ele supõe o ardor dos sentidos. Este, é verdade, corre o risco de distrair a inteligência e de ofuscá-la: pode acontecer que ele a faça sucumbir. Mas, sem o ardor dos sentidos, a inteligência definha: ela precisa desse fogo que a reanima e que ela não cessa de alimentar. Há nos sentidos uma potência de penetração cuja ponta extrema ela aguça. Não se trata, portanto, de vencer os sentidos, mas de fazê-los servir ao abalo da inteligência, que só ela pode trazer-lhes um verdadeiro apaziguamento. Todo conhecimento refina e purifica a ação de algum sentido; e a inteligência não abole a sensação, mas a aperfeiçoa e a completa. A chama que se alimentou dos materiais mais impuros pode terminar num pincel de luz pura. A vida é um grande movimento de desejos satisfeitos e renascentes: é preciso que se sustentem em vez de se combaterem; e os mais imperfeitos — que muitas vezes são os mais violentos — conferem-nos uma potência cuja utilização cabe a nós elevar.

Goethe dizia: “Quando não falamos das coisas com uma emoção cheia de amor, o que dizemos não vale a pena ser repetido.” E Madame du Deffand, com mais vivacidade: “Vamos, vamos: só as paixões fazem pensar.

Quem nunca sentiu em si a ponta do desejo sensível permanece sempre exterior ao que conhece: ignora as delicadezas, os pudores, as defesas de quem busca o conhecimento porque põe a alegria superior da solidão na espera ansiosa de que essa própria solidão se rompa. E a inteligência só lhe fornece artifícios engenhosos: pois a inteligência não pode ver a verdade sem que a alma seja tocada.

O contato com o real sempre comove a parte mais íntima do nosso ser: basta que ela permaneça surda para que a natureza pareça sem voz. É preciso ir ao encontro das coisas com toda a atividade do pensamento e do amor: pensar e amar é descobrir nossa presença no mundo, é sentir e realizar, entre o mundo e nós, uma unidade sobrenatural. O conhecimento, portanto, não pode ser separado do desejo: ele é um desejo de união com a própria totalidade do Ser. Mas há, entre a inteligência e o seu objeto, uma espécie de apelo recíproco. Assim, o objeto parece ir ao encontro da inteligência num movimento de amor: há nele uma necessidade de fecundar a inteligência, que o recebe em si e o envolve de luz. Ele não cessa de se dar, contanto que, por sua vez, seja desejado.

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