Capítulo II. O conhecimento
3. A visão e a audição
Se o conhecimento se distingue do real e, no entanto, o supõe e o imita, pode-se compará-lo justamente à imagem que o espelho reflete ou ao som que o eco repercute. Um objeto visível não passa de uma massa obscura até o momento em que o raio que o tocou toca um olho vivo que o envolve no círculo do seu horizonte. Um som não passa de uma vibração do ar até o momento em que encontra um ouvido que o capta e o reproduz em sua concha misteriosa. A visão e a audição são os sentidos do conhecimento: voltam-se para o universo que nos cerca e o povoam de imagens e de ecos; uma torna o mundo visível, mas por um espetáculo tão secreto que um só ser é capaz de vê-lo; a outra torna o mundo sonoro, mas por um toque tão interior que um só ser é capaz de ouvi-lo.
O tato nos dá do mundo uma posse carnal: ele estende até o objeto a posse que temos do nosso próprio corpo. Mas a posse do mundo pela visão é mais intelectual, mais desinteressada e mais perfeita. É preciso que o objeto se afaste de mim para que emerja das trevas e apareça na luz; então, em vez de apenas sentir sua presença, eu o abarco como um quadro: capto seu contorno e sua cor; discerno as relações delicadas de seus elementos e o lugar que ocupa no meio do mundo. Por mais que minha mão o tenha percorrido à vontade na escuridão, a visão, no instante em que mo revela, me dá a revelação dele. Ele se torna então um puro objeto de contemplação. Pois a visão se aplica ao mundo material, mas lhe dá um rosto espiritual. Ela só apreende uma imagem, que se assemelha a uma ilusão se o tato não a confirma; mas ela nos entrega, de uma só vez, essas partes do mundo que o movimento só nos permite encontrar uma a uma. É por ela que o mundo é grande: só ela nos revela o Céu. O universo visível possui uma majestade imóvel e silenciosa; e os movimentos que ele nos mostra, quando o som deles se retira, assemelham-se a atos do pensamento.
A audição, ao contrário, registra todos os abalos que os corpos sofrem: são mensagens que eles nos dirigem. O objeto iluminado recebe de fora a ação da luz; mas o som parece obedecer a um impulso interior, como mostra a voz. Ao proferir a palavra, damos uma alma à coisa. A luz nos revela o mundo: foi o Verbo que o criou. A visão nos faz comunicar mais com a natureza; a audição, com o ser humano: e o timbre da voz é menos rico do que a fisionomia, mas nos comove mais profundamente. Ver é descobrir a obra da criação; ouvir é ter com o Criador uma espécie de cumplicidade.