Skip to content

Voltar ao livro

Capítulo II. O conhecimento

2. O olhar

A beleza das imagens que se veem nos espelhos não vem da beleza dos objetos que eles refletem, mas da perfeição e da pureza de sua superfície. A menor desigualdade de nível, a menor poeira bastam para deformar a imagem, mutilá-la, torná-la irreconhecível. O espelho se assemelha a um olhar. Os olhares que têm mais claridade e profundidade são os que recebem e devolvem mais luz: e já não se sabe se essa luz vem do seu próprio fundo ou se eles se limitam a recebê-la. Como os espelhos, eles nos entregam, alternadamente, os aspectos mais mutáveis do real através de sua presença invisível; e não são alterados por essas imagens passageiras; não retêm delas nenhum vestígio. O olhar puro, enfim, não apreende do real senão cores frágeis que a mão é incapaz de apreender, assim como o espelho representa os objetos atrás dele num lugar de onde sua substância escapou.

Há, no livre movimento das pálpebras, uma imagem da atenção voluntária. Pois nos cabe abrir e fechar os olhos; mas não nos cabe criar o espetáculo que lhes é oferecido.

O olhar não produz a luz: apenas a acolhe. Do mesmo modo, o ato mais perfeito da inteligência é um ato de atenção pura. Mas a visão é a alegria do olhar; quando vê, o olhar perde sua independência e parece abolir-se: é que já não é senão um com o seu objeto.

Como o olho, o espírito tem sua pupila, que deve deixar penetrar a luz e que se torna mais estreita à medida que a luz é mais viva. Assim que se lhe dá passagem, a luz se infiltra por toda parte como a água. Mas nosso amor-próprio lhe opõe sem cessar novos anteparos. O papel da atenção é retirar o anteparo. Imediatamente, pela abertura, a luz nos inunda.

É porque o olhar reflete a luz que ele próprio aparece como luminoso. É tão difícil fixar o olhar quanto fixar o fulgor da luz. E, no entanto, não há conhecimento tão simples nem tão penetrante quanto aquele que se realiza no encontro dos olhares: os olhos revelam a direção do desejo, o ardor com que ele toma posse de todos os objetos que lhe são oferecidos; num contato de um instante, eles entregam o ser ou o recusam.

A consciência de si — 2. O olhar has loaded