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Capítulo II. O conhecimento

1. Sombra e luz

Há uma só verdade que penetra em todos os espíritos, embora neles assuma as formas mais diferentes, assim como há uma só luz que ilumina todos os olhares, embora nenhum deles seja jamais atingido pelos mesmos raios. Semelhante à luz, a inteligência nos revela tudo o que é; ao tirá-lo das trevas, parece criá-lo. Ela se adianta ao olhar como para se dar a ele; mas é preciso que o olhar, por sua vez, se adiante para acolhê-la. Como a luz é feita de um feixe de cores, a inteligência é feita de um feixe de emoções: e a inteligência mais pura é aquela que funde em si o maior número de emoções sem deixar transparecer nenhuma.

A luz é o princípio das coisas, e é sua sombra que serve para criar tudo o que é. É apenas em sua sombra que somos capazes de viver. Contemplamos todos os objetos numa luz que vem do sol e não de nós. E os percebemos numa meia-luz, como uma mistura de sombra e luz. A sombra é, portanto, inseparável da luz; ela é íntima, secreta, protetora. É pela sombra que a luz abriga o olhar contra o seu fulgor, assim como é pela sensação que a verdade abriga a alma contra a sua ponta mais aguda.

Ficamos ofuscados quando olhamos o sol, como quando olhamos o espírito puro. Só podemos ver a infinidade de corpos que refletem e captam de modos diversos a luz, assim como só podemos pensar ideias particulares, cada uma exprimindo uma das faces da verdade. A luz é semelhante a Deus: não a vemos, e é nela que vemos todo o resto. É nela que tudo o que é está imerso: é ela que o torna visível. Assim, é preciso que o princípio do conhecimento escape ele próprio ao conhecimento: ele só pode conhecer aquilo que se lhe opõe. Pois a luz que ilumina tudo é incapaz de receber iluminação. Só apreendemos o combate entre sombra e claridade, o intervalo que separa as sombras, os limites da luz e, por assim dizer, aquilo que ela não é, antes do que aquilo que ela é. Cabe aos corpos absorver a luz e aos espíritos propagá-la. É por isso que vemos os primeiros e não os outros. E, mais ainda, o que caracteriza a verdadeira luz é não ser percebida por aqueles que a têm: eles próprios se tornam focos que iluminam precisamente aqueles que não a têm.

Há espíritos transparentes que deixam passar toda a luz que recebem; outros que, semelhantes a espelhos, a devolvem inteira ao redor de si; e, enfim, outros que, como corpos opacos, a enterram em suas próprias trevas. Cada espírito procura, para nela habitar, a zona de luz que lhe convém: são poucos os que podem suportar a luz pura; alguns se comprazem nos contrastes mais violentos de sombra e claridade; outros preferem a penumbra ou a claridade difusa.

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