Skip to content

Voltar ao livro

Capítulo I. A consciência de si

8. Descobrir-se é superar-se

Só tomamos consciência do nosso ser e da nossa vida numa emoção tão cheia de angústia, alegria e esperança que ela nos dilacera e quase nos faz desfalecer. Mas essa emoção, que deveria ser permanente, é difícil de surpreender; quando se produz, apaga-se depressa para nos deixar livres de dispor de toda a nossa atenção e de toda a nossa vontade para tarefas particulares. Assim que conseguimos concentrar nela o olhar, isto é, perceber com lucidez a presença do universo e a nossa presença no meio dele, o dia que brilha para nós brilha com a mesma luz milagrosa do primeiro dia da criação.

Todos os que, nessa primeira descoberta, não experimentam senão prazer ainda não penetraram até a raiz do ser e da vida. Mas, quanto mais o sentimento que experimentam adquire profundidade, mais esse primeiro prazer lhes parece frívolo. É que medem sua responsabilidade diante desse destino que se abre diante deles e que depende de sua iniciativa, diante dessa potência criadora que lhes foi dada e que eles tremem de exercer.

Bem diferente daquele que, aprisionado nos labirintos do seu amor-próprio, se cega na complacência dolorosa que tem por si mesmo, aquele que procura conhecer-se já começa a fugir de si. É preciso separar-se de si mesmo para se ver. O que caracteriza a vida interior é precisamente permitir-nos escapar sem cessar daquilo que somos e tornar viva uma ideia de nós mesmos que nos revela sem cessar novas potências, mas nos obriga a pô-las em prática. Assim, ao procurar conhecer-nos, procuramos sempre aquilo que devemos ser ainda mais do que aquilo que somos: procuramos sempre o que nos falta, e só podemos encontrá-lo num princípio que nos constrange sem cessar a nos negar para nos superar.

A consciência nos revela a presença desse ser individual que se agita em cada um de nós, que estremece, que deseja e que sofre. Mas tomar consciência dele é deixar de se identificar com ele. O eu só se realiza mantendo-se o mais afastado possível de si mesmo, isto é, do que já é, e o mais próximo possível dessa própria ideia do Todo, do qual ele é apenas uma parte, mas com o qual comunga e de onde tira um perpétuo enriquecimento. O mistério do eu é não ser senão desejo, não se cumprir senão ao sair de si e, por assim dizer, estar onde não está ainda mais do que onde está. Ele só tem a certeza de se descobrir quando se liberta de si; e não há para ele outra vida senão a de abandonar-se sem cessar e refugiar-se sem cessar num outro eu mais vasto que está sempre além de si mesmo.

A consciência de si — 8. Descobrir-se é superar-se has loaded