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Capítulo I. A consciência de si

7. A consciência desinteressada

Assim que a consciência desperta, o ser que sente e age dirige o olhar para todos esses bens que lhe pertencem, redobra indefinidamente a presença deles pelo pensamento, compraz-se e se abandona à posse e à fruição deles.

Mas a mesma consciência que é capaz de nos escravizar é capaz também de nos libertar; pois ela nos dá o espetáculo dos nossos próprios estados, que então nos aparecem como os de um outro. Nós os percebemos assim numa luz mais pura: obtemos em relação a eles uma espécie de desinteressamento; desprendemo-nos do que o olhar nos mostra para não mais sermos senão um com o olhar que o vê; e tudo o que há em nós recebe desse olhar que o envolve e o penetra uma radiação invisível.

O conhecimento que tenho da minha própria dor não é doloroso, assim como o conhecimento que tenho da cor não é ele próprio colorido. Essa impassibilidade da consciência é a presença em mim do olhar com que Deus contempla todas as coisas; mas estou tão longe de Deus que o olhar que deveria desprender-me do meu mal muitas vezes lhe dá mais agudeza.

A impassibilidade é a própria condição do conhecimento. Apenas essa impassibilidade não deve ser confundida com indiferença nem com dureza. Sem dúvida ela nos torna insensíveis a todos os movimentos do amor-próprio. Mas é para nos tornar semelhantes a uma superfície polida e nua, sobre a qual as nuanças mais fugidias do real, seus aspectos mais frágeis, revelam sua presença por um toque infinitamente delicado. Essa impassibilidade é o estado de uma sensibilidade pura; já não se distingue de um conhecimento perfeito.

O ser que se olha como um objeto lança-se no universo para tornar-se espectador de si mesmo; mas então já está acima desse ser que ele olha. O ser que conheço em mim já não sou eu assim que o conheço: já é um outro. Assim, a consciência é um ato pelo qual me torno sempre superior a mim mesmo.

Disse-se que cada consciência é a imagem do que está acima dela e o modelo do que está abaixo dela; isto é dizer que, sem sair de si mesma, ela pode conhecer tudo o que é. Mas a consciência, ao abrir diante de nós o infinito, mostra-nos a miséria de todas as nossas aquisições. Para que serviria a consciência, se encerrasse o eu em sua própria clausura? Mas, ao lhe revelar essa clausura, ela o convida sem cessar a transpô-la. E é porque ela é desinteressada que nos liberta do nosso apego a nós mesmos e, por conseguinte, dos nossos limites.

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