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Capítulo I. A consciência de si

6. A intimidade mais secreta

A consciência é um mundo íntimo e fechado que descobrimos numa espécie de tremor. E a atenção que damos à sua vida oculta nos mostra nela um jogo infinito de nuanças diferentes, torna-se o princípio de todas as delicadezas da nossa sensibilidade e multiplica em nós os atritos e as feridas. À medida que cresce nosso ser invisível, cresce também nosso amor-próprio.

Há uma forma de vida interior que consiste em não deixar que nenhum desses frêmitos se perca, em retê-lo para prolongá-lo e para nele se comprazer. Mas esse retorno do eu sobre si mesmo produz nele uma espécie de estreitamento; não lhe dá senão uma posse ilusória que o extenua e o impede de se renovar e de crescer.

É preciso descer mais fundo na intimidade para descobrir em si um outro mundo no qual o amor-próprio, em vez de se apurar, se dissolve; mas cada um de nós sente uma emoção incomparável ao experimentar sua riqueza, sua profundidade e sua infinitude: é um mundo no qual todos somos chamados a comungar. Diante dele o mundo aparente recua e perde sua realidade: nossas preocupações miseráveis se dissipam; nossa vida se ilumina e se transfigura. Dir-se-á que esse é um país longínquo e desconhecido em que não se pode penetrar sem uma graça sobrenatural? É verdade que quem dele fala parece empregar uma linguagem misteriosa, quimérica, despojada de todo interesse humano. Mas, prestando melhor o ouvido, reconhecem-se pouco a pouco todas as palavras. Pois esse viajante vem do paraíso, de um paraíso espiritual que cada um traz em si e que basta desejar para descobri-lo e nele viver.

De todas as formas de verdade que se revelam a nós, aquela que é verdadeiramente nossa e que nos revela tal como somos é tão única e tão pessoal que mal ousamos dizê-la e nunca conseguimos comunicá-la por inteiro: a intimidade mais profunda é também a intimidade mais fechada. No entanto, são os mesmos seres humanos que são incapazes de toda intimidade verdadeira consigo mesmos e com o outro. Pois, em ambos os casos, a intimidade só pode produzir-se no momento em que o amor-próprio é abolido. Mas então se forma na consciência um santuário interior ao qual todos os seres têm acesso segundo seu grau de sinceridade e no qual reconhecem a identidade do seu segredo comum. Pois a essência da consciência é ser impenetrável e penetrar tudo: ela penetra tudo o que é sem sair de si mesma. Assim, é a consciência que se retirou mais longe ao coração de si mesma que também é a mais acolhedora; é ela que dá mais e recebe mais e, mais ainda, já não faz distinção entre dar e receber.

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