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Capítulo I. A consciência de si

5. O eu se escolhe

Como falar do eu como se ele fosse uma coisa? Não há nele senão o poder de se tornar, a cada instante, alguma coisa, isto é, outra coisa. Pois é preciso que o espírito não seja nada para poder acolher tudo; que seja invisível para ser transparente a todos os raios; que seja menor que um grão de mostarda para não poder obter nada senão por sua própria germinação; que esteja despojado de todo corpo e de toda posse particular para que tudo o que poderá tornar-se seja efeito de sua pura operação ou de seu puro consentimento.

O eu não pode conhecer-se de outro modo senão exprimindo-se. Mas, exprimindo-se, ele se realiza; toma posse de certas disposições que, até então, estavam nele sem serem ele, mas que só se tornam suas pela escolha e pelo uso que delas faz. É esse eu, expresso pela ação e pela palavra, que dá testemunho da nossa existência aos olhos do outro; é ele que é objeto da memória e que pouco a pouco forma o nosso ser mais secreto. Assim, o eu não é um ser dado, mas um ser que não cessa de se dar a si mesmo: e o sentimento que ele tem de si não é tanto a revelação do que ele é quanto um apelo ao ato pelo qual ele vai ser.

O eu tem sempre algum modelo ao qual procura se assemelhar: mas escolher um modelo já é começar a se realizar. O eu é um debate entre vários personagens: mas há sempre um deles com o qual ele se solidariza. Encontramos no eu uma multiplicidade de elementos que formam a matéria de sua atividade — o corpo, os desejos, os sonhos da imaginação e até a razão —; mas cada um deles pode tornar-se o objeto exclusivo de seus cuidados a ponto de, por fim, confundir-se com ele. Ora, já que o eu se torna o que escolheu, importa que reja sua escolha: pois há nele a semente de todos os vícios e, para fazê-los crescer, basta-lhe um pouco de complacência.

Entretanto, escolher o melhor não é mutilar sua natureza, nem desviar o olhar de seus movimentos mais baixos, nem procurar sufocá-los: é usar a força que neles se esconde, dar-lhe outro curso e transfigurá-la. Então o eu deixa de estar dividido. Mas ele só é um se se unifica. O que caracteriza a vida espiritual é produzir a intimidade mais perfeita entre os seres múltiplos que habitam a nossa consciência. Cada um deles, é verdade, mostra ora um pudor pelo qual se esconde, ora um amor-próprio pelo qual procura triunfar. Mas, como na sociedade exterior e visível em que todos os indivíduos devem aceitar estender a mão uns aos outros, compreender-se e sustentar-se, é preciso que cada uma de nossas potências interiores consinta em falar e em escutar alternadamente, em desempenhar seu papel ajustando-o ao de todas as outras. A paz consigo mesmo é muitas vezes mais difícil de obter do que a paz com o outro; mas a consciência é um povo tumultuoso do qual o eu é o árbitro e o conciliador.

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