Capítulo I. A consciência de si
4. A consciência criadora do eu
Pensar é ter consciência de si, é possuir-se a si mesmo. Mas não há diferença entre o ato pelo qual me conheço e o ato pelo qual me crio. Do mesmo modo que a fecundidade do ato providencial não cessa de produzir, no mundo, seres novos, também eu não paro de produzir em mim novos estados pelo ato da minha atenção: assim, graças à operação da consciência, eu me crio a mim mesmo como Deus cria o mundo.
O que é, com efeito, o eu, senão aquilo que cada um conhece de si mesmo? Não posso me atribuir nada do que ignoro: isso pertence a um ser ao qual estou unido, mas cujos movimentos não posso identificar comigo enquanto eles não se tornarem, para mim, um objeto de conhecimento e de assentimento. Assim, só há alma para quem conhece a própria alma e que, conhecendo-a, a faz ser. E pedir para se conhecer não é supor que se é antes de se conhecer, como as coisas são antes que o olhar sobre elas se aplique: o que caracteriza o conhecimento de nós mesmos é precisamente nos fazer.
É que se conhecer não é descobrir e descrever um objeto que seja a si mesmo; é despertar em si uma vida oculta. A consciência me revela potências que ela põe em prática. Ela é, para o eu, ao mesmo tempo uma análise e um desabrochar.
Diz-se que minha natureza é múltipla e feita de potências que me pertencem antes que eu as conheça. Mas conhecê-las é exercê-las; e, antes que eu as exerça, posso chamá-las minhas? Em verdade, não posso chamar de eu esse tesouro obscuro do qual não cesso de extrair, que sempre me oferece novos dons e que se retira de mim assim que minha atenção fraqueja ou que minha vontade se recusa.