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Capítulo I. A consciência de si

Quando estamos a sós, dizemos que estamos a sós conosco, o que implica que não estamos a sós, mas que somos dois. O ato pelo qual nos desdobramos para ter consciência de nós mesmos cria em nós um interlocutor invisível a quem pedimos o nosso próprio segredo. Contudo, desses dois seres que nascem em nós assim que a consciência aparece — um fala e o outro escuta, um olha e o outro é olhado —, nunca sabemos qual é aquele que somos nós mesmos: assim, toda consciência se vê obrigada a representar para si uma espécie de comédia na qual o eu não cessa de se procurar e de fugir de si.

Vê-se isso bem na memória, que é o melhor instrumento do conhecimento de si, o mais sutil e o mais cruel. Nunca temos consciência do que realizamos, mas apenas do que acabamos de realizar. A memória supõe um recuo, um despojamento de todo interesse, que nos permitem perceber nossa própria realidade numa espécie de transparência purificada: mas essa realidade já nos é estranha, e reconhecê-la é também negá-la.

A consciência que temos do universo é ela própria um diálogo entre o universo e nós, em que o universo nos fala tanto quanto lhe falamos. Observando o próprio corpo, as outras pessoas e a natureza inteira, o eu se observa em testemunhas fora das quais nada sabe de si mesmo. Nunca chega a apreender diretamente sua verdadeira natureza; mas o ser mais humilde, o menor objeto, o acontecimento mais frívolo são como tantos sinais que lhe trazem a revelação dela. E o espaço inteiro é um espelho infinito em que ele discerne o jogo de suas diferentes potências, a eficácia delas e seus limites.

Quem quer conhecer-se mais de perto olha-se num outro eu que é, para ele, um espelho sempre mais comovente. A descoberta de uma outra consciência é semelhante, para nós, àqueles lugares privilegiados em que percebemos os ecos da nossa própria voz com atraso suficiente para que nos pareçam distintos, ou àqueles poços profundos em que eles reverberam com uma gravidade sonora que nos dá uma espécie de sobressalto.

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